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Em Busca de Um Sentido

05
Out16

Carta de Despedida

Tatiana

Durante muitos anos não consegui aceitar que te tivesses ido embora. Achei extremamente ridículo que virasses assim as costas a quem não teve culpa das decisões que tomaste e que fizeram com que a vida tomasse proporções que não te agradaram. Eu era apenas mais uma inocente no meio de tudo o que se passou.

 

Acreditas que cheguei a achar que um dia, por milagre (ou azar), tu ias entrar no sítio onde eu estava? Quão estúpida pode uma criança ser?

 

Na minha imaginação ias aparecer na escola e pedir-me que te perdoasse, que tinhas precisado de tempo para pensar, mas que a culpa não tinha sido minha. Criava diálogos entre nós. Queria e precisava de ter um discurso preparado para o dia em que tu decidisses que era hora de voltares.

 

Essa hora nunca chegou. Mas tu precisavas, ou precisas, de ouvir algumas coisas, o que fizeste foi totalmente errado e sem nexo. Não tens razão.

 

Esse tempo em que criei o momento do regresso passou. Cresci, sabes? Deixei de gostar da ideia de falar contigo, afinal de contas tinhas mais do que idade para perceber os erros que cometeste. Cheguei a jurar que te odiava, que nunca mais ia querer falar contigo, porque me tinhas abandonado. A mim, que era uma criança. Mesmo que voltasses não merecias uma única palavra minha.

 

Mas explica-me... Como te podia odiar, se nem foste capaz de me dar tempo para eu te amar? E eu com tanto amor para dar... Saíste da minha vida e deixaste-me desorientada, não por sentir a tua falta, mas por não encontrar sentido na atitude que tiveste, por não saber se valia a pena confiar noutra pessoa para me educar. Sabes que essa era a única obrigação que tinhas, não sabes?

 

Durante anos via-te em cada homem que passava na rua. Podias ser qualquer um. Comecei a ter um medo doentio de sair de casa. Chorava, tinha ataques de pânico, não dormia. Hoje sei que a culpa foi sempre tua e das memórias infelizes que me deixaste.

 

O pânico deu lugar à maior incompreensão que vou sentir em toda a minha vida, e essa vem acompanhada da pena. Sim, eu tenho pena. Mas não de não te conhecer, nunca serias capaz de acrescentar algo bom na minha vida. Tenho pena de não me conheceres, para perceberes o que perdeste na tua vida.

 

Entretanto, passou mais de uma década. 

 

Tornei-me mulher. Até dizem que sou bonita e inteligente. "Coitada, não sabe a sorte que tem" repetem vezes e vezes. Perdi-lhes a conta. Não faço caso. Nunca ligo ao que me dizem sobre mim, muito menos quando não o sinto. 

 

Comecei a ter a certeza que nunca mais te vou ver. Aliás... Caso te veja não vou ser capaz de te reconhecer entre todos os rostos que foram substituindo as poucas memórias que tinha tuas. No entanto, cada vez que percebo que falam de ti estremeço e fujo. É nessas alturas que sinto que ainda tenho quatro anos num corpo de dezoito. Choro. Choro muito. Mas não deixo que saibam. Se por um acaso da vida te deparares com isto, não contes a ninguém, pode ser? Deves-me mais do que isso, mas é a única coisa que te cobro.

 

Apesar de tudo e mais alguma coisa de mau que me deste, incluindo o facto de por vezes me sentir vazia, graças a ti aceitei o que é ser diferente, cresci sem ter qualquer preconceito. Também me tornei um bocadinho mais humana, porque o resto deu-me a minha mãe, aquela que nunca me deixou sozinha e lutou por mim.

 

Despeço-me de ti para sempre, agradecendo-te apenas uma coisa. Obrigada por me teres servido de exemplo para saber aquilo que jamais vou ser. Eu não vou ser cobarde, nem vou desistir de mim, porque isso jamais me faria feliz, tal como não te fez a ti. 


E só mais uma coisa... Se pensares em voltar, não voltes. Somos felizes sem ti. Há alguém que nos deu o amor que tu nunca tiveste coragem de dar. É o meu pai. É o meu herói da vida real. Devo-lhe tudo.

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