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Em Busca de Um Sentido

Quando me vão perceber?

A Tati Escreveu.png

Évora, 8 de março, 2014

Gostava de saber quando é que o mundo me vai perceber! Será que sou complicada ao ponto de ninguém compreender o que digo e sinto? Agora tudo o que falo é mal interpretado. Custa, mas é a verdade... Talvez seja a forma como falo... Afogo-me nos meus pensamentos aos poucos e depois disparo-os todos misturados... 

Talvez a complicação esteja em mim e não nos outros... Talvez o erro esteja presente na minha mente e não na compreensão dos outros... Sou livre para me expressar, mas encontro-me limitada por quem me ouve... Não tenho obrigação de agradar ninguém, mas encontro-me a obrigar-me a agir de forma a que agrade...

E ainda me pedem justificações para pensar da forma que penso quando sabem que o pensamento é algo espontâneo...

Que sonhos mais serão perdidos?

Vou no metro a ler um livro que não sei dizer se me está a alimentar a alma ou se me está a desconstruir aos poucos. Vou descansada uma vez que vou percorrer a linha praticamente toda. Assim posso enlear-me nas linhas que tenho nas mãos.

Entra uma criança pela mão da mãe e é obrigada a sentar-se de frente para mim. Noto que está a olhar-me com espanto, como se fosse estranho alguém andar com um livro fora de casa. Lê o título em voz alta - como ainda não olhei na sua direção acha que não estou a ouvir.

"Mãe, tens livros?"

"Só em casa..."

"Quero ler. Posso ler?"

E a mãe passa-lhe para as mãos um panfleto que por momentos lhe serve - afinal só quer ler. Depressa entende que aquilo é chato, não tem uma história.

"Mãe, tens papel e caneta? Quero escrever uma história..."

E a mãe faz-lhe sinal para sossegar, tem que se portar bem em frente às outras pessoas.

Saímos na mesma estação e seguimos caminhos opostos.

Vou a descer as escadas e pergunto-me se aquela mãe irá alimentar os desejos da criança ou ignorá-los por julgar que aquilo é um pedido idiota de alguém que pela tenra idade que tem só quer imitar tudo o que vê...

Se for uma vontade ignorada, vou ter pena... Se a minha mãe tivesse ignorado as minhas ideias de criança eu não estava agora a escrever um blog no tempo que tenho livre do curso que me faz ir ao encontro dos sonhos de menina.

Objetos perdidos. Ou serão histórias?

Vou passeando por ruas que nunca conheci e dou com objetos que não deviam fazer parte daquele local. Restos de pessoas que lhes podiam ou não ter apego, mas ainda assim, restos de pessoas. E sou incapaz de não pensar no que uma simples "coisa" pode dizer sobre alguém e o quanto os nossos objetos nos caracterizam e marcam.

Pergunto-me se o que agora observo não fará falta a quem o perdeu... Ou se por outro lado, foi deixado ali com uma intenção que me é desconhecida, mas que mesmo assim me intriga e me faz pensar no porquê de aquilo ali estar. Que histórias contaria se pudesse falar? 

O anel deitado fora pela janela de uma casa outrora feliz, mas que agora se veste de luto para virar costas a um casamento terminado. O guarda-chuva partido, abandonado, porque de um dia para o outro perdeu a única utilidade que realmente tinha. A chupeta deixada cair pela criança irrequieta, sem que os olhos de quem a carrega dêm pela perda que ainda vai gerar horas de choro. A esferográfica que escreveu desde cartas de amor a apontamentos naquelas aulas monótonas que os adultos garantem ser o nosso futuro... Eu bem sei o que é ter objetos preferidos e deixá-los sei lá onde, à espera que por milagre regressem a mim.

E no meio da minha divagação quero dizer-me grata por tudo o que tenho e que não perco. Por tudo o que sendo material, me faz falta e me deixaria com um enorme vazio caso desaparecesse. Seja a caneta dada pelo meu irmão naquele 14 de novembro e que me suportou nos exames com um "never stop dreaming"... Ou então as castanholas que animavam o centro de dia pelas mãos do meu avô, e que agora me recordam a alegria que ele transmitia... Ou ainda a pulseira feita pela minha irmã numa altura em que íamos deixar de estar constantemente juntas, e que eu uso religiosamente...

Objetos que fazem parte do que sou e de quem tenho no coração. Objetos aos quais atribuo demasiado simbolismo, mesmo sabendo que o verdadeiro significado está no sentimento e não no físico. Mas ainda assim objetos de um valor incalculável e bem mais ricos do que qualquer outra coisa...

E por isso me pergunto... Que histórias perdidas estarão por detrás de cada objeto deixado por aí, sem querermos?