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Em Busca de Um Sentido

Mais uma história...

Releio textos antigos que retratam sentimentos dos quais nem me recordava e percebo o quanto fui mudando com o passar dos dias, que se tornaram meses e um dia serão anos... Mudei ao ponto de as palavras parecerem ter sido escritas por outro alguém, mais sensível, mais imaturo, mais impulsivo... Mais incompreensivo.

Sei contar a história por alto, como aqueles contos que os nossos avós nos contam quando somos pequenos e irrequietos.

Lembro-me do calor que aqueles risos me davam, do frio na barriga que sentia quando olhava aqueles olhos, do nervosismo que sentia quando existiam planos entre nós...  E lembro-me das palavras ditas nos momentos de discussão, das lágrimas que foram plantadas por aí, sem necessidade... Porque na verdade eu consigo perceber que estou mais feliz, mais calma, mais mulher... Até noto que a atual relação que tenho me faz sentir muito mais realizada e plena.

Mas salto da cama a sentir-me em baixo porque te tenho na minha cabeça, porque não consigo apagar recordações que ficaram gravadas ao longo dos anos...

Só sei dizer que tudo poderia ter sido tão melhor, tão menos doloroso, tão mais saudável... Mas depois percebo que tudo o que disse ser amor não o era, porque se o fosse permanecia, e olho para as estrelas para perceber que nem elas duram para sempre, como iria durar uma relação destinada ao fracasso?

Lembro-me de tudo como se tivesse sido outra vida, uma em que eu tinha planos diferentes e irrealistas... Aliás, parece ter sido tudo escrito num livro que li há séculos, mas que mantenho guardado na prateleira. No entanto, quando olho para a lombada imagens percorrem-me a mente e volto a um ciclo que não queria para mim.

É como se quisesse esquecer tudo com força suficiente para nem me lembrar dos pormenores... As recordações surgem, mas sem ligação entre si. Vivi uma vida em que o círculo de pessoas que me rodeava era aquele que eu achava que iria de mãos dadas comigo até ao infinito...Mas não veio.

E eu sei que se me ligasses eu iria provavelmente rejeitar a chamada, mesmo que me doesse mais do que tudo neste mundo, mesmo que continue a mandar mensagens para saber se estás bem, mesmo que no fundo queira que se apaguem as más memórias e fique a amizade que se tinha... 

Lembro-me levemente do teu sorriso... O que me faz perceber que talvez daqui a vinte anos cada um tenha a sua vida e contemos a nossa história por aí, sem sequer nos lembrarmos dos rostos, uma vez que tal como eu deves ter apagado as fotografias que poderiam ter ficado...

Garanto-te que não guardo remorsos... Apenas tenho pena de esta ser apenas mais uma história mal resolvida na minha vida, embora tenha consciência que seja impossível de resolver. E a culpa é dos dois...

Uma Carta ao Passado

Querido passado,

Escrevo-te hoje, de novo, para te informar que estive a pensar e talvez nunca tenha sido amor. Confesso que posso estar a escrever de forma egoísta, só para te dizer que para mim o ponto final foi definitivamente colocado, mesmo que me assombres em sonhos, mesmo que trema de cada vez que oiço algo que traz memórias... A verdade é que preciso de provas, e esta carta pode ser mais uma.

Vivo num talvez, para não sentir que foi tudo vivido em vão, mas na verdade o talvez pende para um "tenho a certeza". Vivo entre o já foi e o nunca existiu, entre as saudades e a repulsa. Sei que tudo o que senti me fez tomar várias decisões, das quais não me arrependo. Se tivesse sido tudo de outra forma eu não estava tão feliz como estou agora.

E se nunca foi amor? Se fosse amor talvez ainda hoje o meu telefone tocasse, se fosse amor talvez eu fizesse por manter a ligação...  Mas talvez ninguém saiba ao certo o que é o amor...

Sabias que sempre que disse não ter tempo, a verdade é que era para alguém em específico que não tinha tempo? Insisti em dizer palavras bonitas, prometi mundos e fundos, e agora o que faço instintivamente é ambicionar não ter dito nada, porque de tanto falar acabei a acreditar em tudo...

Confesso que por momentos desejo que não tivesse entregado tanto do que sou, desejo que me tivesse mantido com uma personalidade intocável e moldada apenas ao que eu queria ser... Hoje sei que tinha tudo, tudo menos o facto de gostarem de mim pelo que era... Tinha tudo menos a minha liberdade de ser.

O que me atormenta ainda mais é saber que estive quase lá, entendes? Houve quase o para sempre, houve quase a ligação, houve quase o compromisso.

Mas ficámo-nos pelo quase e seguimos caminhos diferentes... Corretos ou errados, penso que nunca saberemos, mas parece que foi o momento ideal, um alinhamento de astros que veio mesmo a calhar.

Ainda que pareça que me entrego sempre de olhos fechados a um ciclo vicioso, tudo faz com que sinta que desta vez é diferente. Sei que o coração é outro. Sei-o, porque o sinto. E no fundo é isso que me permite ficar... 

O momento seria agora, ou nunca... Sei que se não aproveitasse este impulso, eu nunca te iria escrever, nunca iria despejar tudo o que existe na minha mente.  

Só me resta pedir-te desculpa, pelas palavras que não querias ouvir, neste caso ler, e que eu devia ter guardado para mim... No entanto, as tuas frases sufocam-me cada vez que eu me lembro delas...  Vê isto como uma retribuição.

Quisémos lutar por um destino que não era o nosso e hoje deixo-te com apenas esta carta e viro-te costas.

Sê feliz, 

o teu passado.