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Em Busca de Um Sentido

Querido avô...

Queria estar a escrever-te neste momento para te dizer que dói menos... Queria dizer-te que sou forte, que aguento a tua ausência, embora não te esqueça... E sinto-me fraca, tão fraca, quando tudo o que te posso dizer é que me custa ir a casa. Custa-me a ideia de chegar lá e a tua cama estar vazia. Custa-me saber que dizer "o avô" é suficiente para me virarem as costas, porque cada um lida com a dor como pode, e a minha dor arde como fogo, mas chama por ti a cada segundo.

Tenho necessidade de falar de ti. Tenho necessidade de ver o teu sorriso quando ainda tinhas forças. Eu só queria que o mundo fosse de outra forma, só queria que te tivessem dado tudo o que precisavas, para além do imenso carinho que a tua família te dava.

Quem tratava de ti não via o meu avô, quem analisou os teus exames não via o homem que existia... Ninguém viu tudo o que um dia foste, e que deixaste de ser. Deixaste de o ser por culpa deles, só por culpa deles. Culpar a idade é ser hipócrita, porque a idade não ataca do dia para a noite, é um processo gradual, é algo que se vai notando e não uma chapada repentina.

A tua partida fez-me ter medo. Sei que não devia dizê-lo, devia manter-me calada, viver a minha vida e fingir que estou bem. Mas, avô... Eu não quero perder mais ninguém, consegues perceber isso?

Por muito que os dias sejam complicados, que me custe lidar com tudo o que vou sentindo, a dor não sai daqui... A dor fica, fica sempre. Aceitei que não podias ficar cá para sempre, embora eu o quisesse, mas não me consigo habituar... Achas que esse dia vai chegar?

Estejas onde estiveres, acredita em mim quando te digo que vou ficar bem. Estejas onde estiveres, está descansado, descansa tudo o que a vida não te permitiu descansar e confia nos ensinamentos que deixaste a cada um de nós.

Avô... Amo-te.

Por quanto tempo morre o homem?

"Quanto vive o homem, por fim?

Vive mil anos ou um só?

Vive uma semana ou vários séculos?

Por quanto tempo morre o homem?

Que quer dizer para sempre?"

Pablo Neruda

Há dias em que acredito que há vida depois daquilo a que chamamos vida. Por vezes tento enganar-me e mudar de ideias, dizer que tudo termina no segundo em que fechamos os olhos e a nossa respiração deixa de marcar o passar do tempo.

Não consigo convencer-me de que estamos aqui só porque sim, só porque os átomos são incríveis e existe uma energia que não sabemos bem qual é, mas que nos faz sobreviver. Essa é a parte de mim que me faz ir um bocadinho contra o que se denomina por Ciência, mesmo que eu tenha fé de que um dia vamos conseguir chegar lá.

Muitas são as questões que com o passar dos anos se foram formando na minha mente. Várias foram as provas, mesmo que imaginadas, embora eu queira crer que existiram. 

Talvez tudo sejam esperanças de uma idealista, que quer que o mundo seja perfeito, que pretende que tudo seja construído de forma a que nós consigamos evoluir cada dia mais um bocadinho. Ainda assim, para mim faz sentido que exista algo depois... Para onde vai toda a energia que temos? Como é que desligamos assim, do nada?

Consigo defender ambas as ideias: a de que não existe nada quando se morre e a de que continuamos a viver, mas como energia. No entanto, quase sempre opto pela segunda. E sim, eu sei que menciono com alguma regularidade que não tenho uma religião.

A verdade é que não tenho nenhuma religião. No entanto, tenho a esperança, tenho a fé... Posso até dizer que tenho mais fé que muitos religiosos que por aí andam. Acredito que tudo é energia e que, quer queiramos ou não, tudo o que fazemos tem uma consequência, mesmo que essa seja recebida tarde, vai chegar. Acredito que os nossos pensamentos podem afetar o que nos rodeia, que puxamos o que desejamos para os outros.

Para mim faz sentido que estejamos no mundo para nos melhorarmos moralmente, para evoluirmos, para dar melhores condições às gerações futuras, que talvez sejamos nós, ou talvez seja outra pessoa qualquer.

Se às vezes me acho louca? Acho. Mas isso passa... Não somos todos loucos, afinal?