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Em Busca de Um Sentido

Vou enviar-te todo o amor que te tenho...

Nas sombras da noite vem-me à memória o teu rosto, num ar brincalhão, sempre com uma piada na ponta da língua e com um ar compreensivo... E é nestas alturas que eu percebo o quanto te eternizei na minha vida, o quanto tenho de ti como referência e o quanto me vou enchendo de saudades por saber que o abraço não volta e que os risos também não.

Nem sempre o digo, mas todos os dias me lembro de ti e sinto a falta que me faz ouvir uma história tua, mesmo quando é repetida e me mostra o quanto sou privilegiada por ter tido a sorte de te ter um dia, porque ter-te permitiu-me chegar aqui... Querer dar-te um mundo cheio de maravilhas, trouxe-me o sonho da menina que te chegou a casa assustada com as possibilidades que a vida lhe estava a oferecer.

Sei que o amor era mútuo, sei que, estejas onde estiveres, te enches de orgulho dos teus netinhos e de tudo o que alcançaram até hoje... Pelo menos gosto de acreditar nisso... Mas este vazio continua, e esta vontade de proteger tudo e todos só se intensifica com a tua ausência, porque de alguma forma, para além de tudo o que me ensinaste, também me deste a noção de fim, a noção de que o que está aqui hoje, pode não estar amanhã.

Foste a alegria de uma casa que nem sempre queria estar animada, foste o calor nos dias frios e foste a sabedoria para uma menina que tinha tanto que nunca teve noção do que era pouco... Mesmo nos momentos em que me olhavas com um ar perdido, sem te conseguires orientar, foste a calma e a compreensão, e isso diz tudo sobre a pessoa que foste na minha vida.

As lágrimas hoje são menos. O tempo passa e com ele vem a aceitação... Mas há dias que são mais intensos. Hoje foi um deles. Passei o dia contigo na cabeça e vou adormecer a enviar-te todo o amor que te tenho, pode ser que algures no universo estejas a recebê-lo... 

Roma, eu sou assim...

Há uma semana estava a entrar num bar, em Roma, sem saber que ia passar a noite toda a falar com pessoas que possivelmente nunca mais vou ver, mas que me permitiram ver Roma para lá das filas de turistas apressados.

Estive em Roma três dias, com duas amigas, e na madrugada de sábado para domingo tivemos a oportunidade de ter dois italianos a mostrar-nos pontos históricos da cidade enquanto explicavam a sua história. 

Vimos imensos monumentos e os assuntos das conversas foram vários, desde a política dos nossos países, à religião, e até sobre as mulheres terem sido privadas de fazer parte do exército durante muito tempo.

Toda a minha estadia foi maravilhosa, embora andasse a dormir três ou quatro horas de cada vez... No entanto, para mim, o momento mais marcante foi quando olhei para as minhas amigas a atirar uma moeda para a Fonte de Trevi e decidi replicar o gesto.

Não sei explicar o que senti em concreto. Foi um misto de felicidade com orgulho e gratidão. E enquanto fechava os olhos e me foquei no desejo, emocionei-me com todos os sentimentos bons que se apoderaram de mim. Foi quando eu percebi onde estava e que fui eu que me permiti estar ali.

Pedi desculpa. E pelo meio uma delas olhou para mim e disse "Tatiana, tu és uma pessoa mais emocional do que a maioria, está na hora de aceitares. Não tem mal seres assim, até é querido". E aí, na minha cabeça soou "Sim, tenho que me aceitar. Eu sou assim." 

Havia o mundo para descobrir...

Tinhas tudo para ser o amor de uma vida, mas algures no tempo o destino quis pregar-nos uma partida e isso não aconteceu...

Quis durante anos que todas as minhas inseguranças se desvanecessem, de forma a ter direito a uma história digna de uma comédia romântica... Só passado muito tempo entendi que a vida podia ser muito mais do que isso... Que havia o mundo para descobrir, tanto o exterior quanto o interior...

Infelizmente o teu amor não me era suficiente... Era como um abraço muito apertado. Apertado demais. Sufocante. Não me deixava respirar. Eu não conseguia olhar para além desse aperto, para além do horizonte que sem intenções me impunhas...

Havia a história que íamos construindo... Ou que tu construias e eu aceitava, confesso que tudo são memórias perdidas... Vamos viver juntos um dia. Eu sabia que não aconteceria. Não era falta de amor por ti, era falta de amor por mim. Como seria possível viver o que me davam, se eu nunca tinha sido capaz de agarrar o que tinha para mim? 

Por vezes acreditei que estava pré-destinada a fracassos amorosos... Tudo haveria de estar aquém das minhas expectativas... Sempre quis mudar tudo, para que ficasse à minha medida, à medida dos sonhos que escrevo em folhas soltas... Olha para mim, agora, a viver um amor com tudo o que tenho, passados tantos anos...

Em todos os sonhos e textos bonitos em que te inclui, estava uma pessoa a escrever que não era eu... Transformava-me em alguém que oscilava entre um estado de perdição de amor e um outro estado de raiva que desconhecia em mim. Num dia queria casar contigo e nunca mais te deixar, para que no dia seguinte te fechasse a porta na cara, após mais uma briga sem noção.

A ti só tenho que agradecer. Pelo bom, pelo menos bom e pelas marcas que deixaste. Marcas essas que me mostram aquilo que não quero para mim e aquilo que não quero ser para os outros. Contigo fui a pior versão de mim própria.  A versão que se odiava e que odiava o mundo. A culpa nunca foi tua... Aliás, ninguém teve culpa. Sabes disso, não sabes?

Crianças a querer viver amores de adultos são só amostras de sonhos que não se concretizam... Cada segundo foi uma aprendizagem e lidar com a falta que escolhi ter fez-me entender que tenho que estar sempre em primeiro lugar, seja em que situação for. Primeiro a minha sanidade mental. Primeiro o meu equilíbrio. Primeiro o meu sorriso. Primeiro tudo o que me faz sentir viva... E eu tinha-me esquecido. 

E de repente já passou um ano...

Passou um ano desde aquele dia em que acordei a saber que nunca mais te ia poder abraçar, mesmo antes que alguém mo dissesse em voz alta. Aquele telefone a tocar foi o alarme e antes de ser atendido eu já sabia que tinha acontecido. O teu sofrimento tinha terminado e o meu tinha acabado de se tornar mais forte.

Tenho saudades tuas, sabes? A partir desse momento tornei-me outra pessoa, mais atenta e também mais medrosa... Mais solitária, mas também a querer viver mais... Porque um dia nós acordamos e o mundo pode ter mudado e eu não quero sentir o arrependimento que seria não aproveitar as oportunidades que me são entregues.

O meu mundo alterou-se nesse dia. Foi o dia em que a perda de alguém se tornou, pela primeira vez, real... Até aí eu achava que ia saber lidar, que são coisas que acontecem e que é mau, mas é o rumo de toda e qualquer pessoa.

Desde aí descobri o quanto sou realmente apegada à minha família e não há um dia em que não me lembre da peça essencial que és nela.

Cheguei a querer ir menos a casa. Tinha medo do que iria sentir de cada vez que entrasse e não te visse, de olhar para a avó e ver-lhe os olhos sempre molhados e as roupas pretas.

Com os dias a passarem entendi que isso não me iria fazer bem, que tinha que viver a tua perda como precisava e não fugir dela... A verdade é que em vez da distância me fazer bem, só tornava mais real o meu sentimento de revolta.

Hoje a tia foi embora, voltou para a Alemanha... Como exatamente há um ano. Mas desta vez custou um bocadinho menos, porque sinto mais a tua presença nas nossas personalidades e nas nossas vivências do que a tua perda. As saudades vão sempre ficar, já me habituei a elas, mas é tão maior toda a bagagem que nos ofereceste com as tuas histórias e a tua boa disposição...

Onde quer que estejas, espero que estejas bem e orgulhoso da tua família, porque eu sinto muito orgulho em dizer que o Sr. Ilídio era e é o meu avô.

Objetos perdidos. Ou serão histórias?

Vou passeando por ruas que nunca conheci e dou com objetos que não deviam fazer parte daquele local. Restos de pessoas que lhes podiam ou não ter apego, mas ainda assim, restos de pessoas. E sou incapaz de não pensar no que uma simples "coisa" pode dizer sobre alguém e o quanto os nossos objetos nos caracterizam e marcam.

Pergunto-me se o que agora observo não fará falta a quem o perdeu... Ou se por outro lado, foi deixado ali com uma intenção que me é desconhecida, mas que mesmo assim me intriga e me faz pensar no porquê de aquilo ali estar. Que histórias contaria se pudesse falar? 

O anel deitado fora pela janela de uma casa outrora feliz, mas que agora se veste de luto para virar costas a um casamento terminado. O guarda-chuva partido, abandonado, porque de um dia para o outro perdeu a única utilidade que realmente tinha. A chupeta deixada cair pela criança irrequieta, sem que os olhos de quem a carrega dêm pela perda que ainda vai gerar horas de choro. A esferográfica que escreveu desde cartas de amor a apontamentos naquelas aulas monótonas que os adultos garantem ser o nosso futuro... Eu bem sei o que é ter objetos preferidos e deixá-los sei lá onde, à espera que por milagre regressem a mim.

E no meio da minha divagação quero dizer-me grata por tudo o que tenho e que não perco. Por tudo o que sendo material, me faz falta e me deixaria com um enorme vazio caso desaparecesse. Seja a caneta dada pelo meu irmão naquele 14 de novembro e que me suportou nos exames com um "never stop dreaming"... Ou então as castanholas que animavam o centro de dia pelas mãos do meu avô, e que agora me recordam a alegria que ele transmitia... Ou ainda a pulseira feita pela minha irmã numa altura em que íamos deixar de estar constantemente juntas, e que eu uso religiosamente...

Objetos que fazem parte do que sou e de quem tenho no coração. Objetos aos quais atribuo demasiado simbolismo, mesmo sabendo que o verdadeiro significado está no sentimento e não no físico. Mas ainda assim objetos de um valor incalculável e bem mais ricos do que qualquer outra coisa...

E por isso me pergunto... Que histórias perdidas estarão por detrás de cada objeto deixado por aí, sem querermos?