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Em Busca de Um Sentido

Vou enviar-te todo o amor que te tenho...

Nas sombras da noite vem-me à memória o teu rosto, num ar brincalhão, sempre com uma piada na ponta da língua e com um ar compreensivo... E é nestas alturas que eu percebo o quanto te eternizei na minha vida, o quanto tenho de ti como referência e o quanto me vou enchendo de saudades por saber que o abraço não volta e que os risos também não.

Nem sempre o digo, mas todos os dias me lembro de ti e sinto a falta que me faz ouvir uma história tua, mesmo quando é repetida e me mostra o quanto sou privilegiada por ter tido a sorte de te ter um dia, porque ter-te permitiu-me chegar aqui... Querer dar-te um mundo cheio de maravilhas, trouxe-me o sonho da menina que te chegou a casa assustada com as possibilidades que a vida lhe estava a oferecer.

Sei que o amor era mútuo, sei que, estejas onde estiveres, te enches de orgulho dos teus netinhos e de tudo o que alcançaram até hoje... Pelo menos gosto de acreditar nisso... Mas este vazio continua, e esta vontade de proteger tudo e todos só se intensifica com a tua ausência, porque de alguma forma, para além de tudo o que me ensinaste, também me deste a noção de fim, a noção de que o que está aqui hoje, pode não estar amanhã.

Foste a alegria de uma casa que nem sempre queria estar animada, foste o calor nos dias frios e foste a sabedoria para uma menina que tinha tanto que nunca teve noção do que era pouco... Mesmo nos momentos em que me olhavas com um ar perdido, sem te conseguires orientar, foste a calma e a compreensão, e isso diz tudo sobre a pessoa que foste na minha vida.

As lágrimas hoje são menos. O tempo passa e com ele vem a aceitação... Mas há dias que são mais intensos. Hoje foi um deles. Passei o dia contigo na cabeça e vou adormecer a enviar-te todo o amor que te tenho, pode ser que algures no universo estejas a recebê-lo... 

Para que serve uma família?

Hoje acompanhei uma das minhas avós a fazer um exame que exigia que fosse acompanhada por alguém de confiança... Aproveitei que estava em casa esta semana e acabei por passar a manhã em que ela estava na cidade com ela.

Acompanhei-a até à enfermeira que a ia levar para a realização do exame e a senhora perguntou se eu era neta, respondeu-me que era muito bonito o que estava a fazer e deu-me os parabéns.

A questão é a seguinte: eu tenho consciência que a relação que a minha família tem entre si é bonita e tudo mais, mas faz sentido darem-nos os parabéns? Na minha cabeça não faz.

Uma família serve mesmo para se cuidar e amar e, devido a tudo o que já passei, cada vez mais digo que família é quem trata bem de nós e se preocupa incondicionalmente.

Percebi que a enfermeira não o disse com má intenção... O que me preocupa é pensar que se ela o disse é porque eu sou a exceção, e devia ser a regra. Os idosos deviam ser acompanhados no seu dia a dia, seja por netos, filhos, sobrinhos... Cuidaram de nós uma vida inteira e agora é a nossa vez de cuidar deles e de fazer com que se sintam protegidos e mimados...

E de repente já passou um ano...

Passou um ano desde aquele dia em que acordei a saber que nunca mais te ia poder abraçar, mesmo antes que alguém mo dissesse em voz alta. Aquele telefone a tocar foi o alarme e antes de ser atendido eu já sabia que tinha acontecido. O teu sofrimento tinha terminado e o meu tinha acabado de se tornar mais forte.

Tenho saudades tuas, sabes? A partir desse momento tornei-me outra pessoa, mais atenta e também mais medrosa... Mais solitária, mas também a querer viver mais... Porque um dia nós acordamos e o mundo pode ter mudado e eu não quero sentir o arrependimento que seria não aproveitar as oportunidades que me são entregues.

O meu mundo alterou-se nesse dia. Foi o dia em que a perda de alguém se tornou, pela primeira vez, real... Até aí eu achava que ia saber lidar, que são coisas que acontecem e que é mau, mas é o rumo de toda e qualquer pessoa.

Desde aí descobri o quanto sou realmente apegada à minha família e não há um dia em que não me lembre da peça essencial que és nela.

Cheguei a querer ir menos a casa. Tinha medo do que iria sentir de cada vez que entrasse e não te visse, de olhar para a avó e ver-lhe os olhos sempre molhados e as roupas pretas.

Com os dias a passarem entendi que isso não me iria fazer bem, que tinha que viver a tua perda como precisava e não fugir dela... A verdade é que em vez da distância me fazer bem, só tornava mais real o meu sentimento de revolta.

Hoje a tia foi embora, voltou para a Alemanha... Como exatamente há um ano. Mas desta vez custou um bocadinho menos, porque sinto mais a tua presença nas nossas personalidades e nas nossas vivências do que a tua perda. As saudades vão sempre ficar, já me habituei a elas, mas é tão maior toda a bagagem que nos ofereceste com as tuas histórias e a tua boa disposição...

Onde quer que estejas, espero que estejas bem e orgulhoso da tua família, porque eu sinto muito orgulho em dizer que o Sr. Ilídio era e é o meu avô.

Trovoada...

Queria estar aí agora, perto de ti e de toda a alegria da nossa casa, que embora pequena é suficiente para a enchermos com os sentimentos mais bonitos. 

Queria poder agarrar-te nessas bochechas que já arranham devido à pouca barba que te vai crescendo, olhar-te nos olhos e dizer-te que eu estou aqui, como estive no dia em que vieste ao mundo e me permitiste que corresse o mundo de mão dada contigo, para não ter tanto medo de tudo.

Sou a mais refilona e ao mesmo tempo a mais protetora... Até quando quero que sejas tu a proteger-me, sinto-me na obrigação de olhar por ti e garantir que ambos seguimos um caminho que nos é comum e confortável, para te manter perto e sentir-me segura.

Sei que o mundo aqui fora parece escuro e até nos dá voltas à barriga, como se assim que metesses o pé de fora começasse uma trovoada imensa da qual não podes escapar.

Não te vou mentir... Essa trovoada existe, existe sempre e é complicado escaparmos dela. No entanto, depois disso vêm os dias bonitos, vem a tranquilidade de saberes que o que está para trás era teu, mas que o que agora consegues mirar também é e é tão colorido, brilhante e promissor...

Não contes a ninguém, mas estou com medo da trovoada e por isso é que te escrevo... Para saberes que mesmo deste tamanho continuo a temer a natureza, como quando éramos pequenos e eu gritava para não te sujares enquanto tu fazias o favor de sujar-me também. 

Páscoa na Alemanha

Encontro-me sentada no sofá de uma casa que não é a minha, mas que adoro como se fosse. Num país que não é o meu, rodeada das pessoas que são a minha família e que me receberam de braços abertos desde o primeiro segundo, para uma Páscoa que já passou.

Sempre achei que este dia estava bastante distante. Não imaginei que iria chegar tão depressa, mas ainda bem que chegou, porque as saudades transbordavam no meu pequenino coração... Muita gente não consegue perceber o apego que tenho à minha família, mas eu amo-os com toda a força que tenho e por mim tinha-os sempre por perto.

Passei os últimos dias na Alemanha, rodeada de amor, risos e calor. Conheci o meu primo mais novo, que tem um ano e pouco, nascido já aqui, filho de um primo meu e foi maravilhoso.

Até o S. Pedro ajudou, visto que nos deu ótimos dias para passear e aproveitar o que queríamos visitar.

Tudo me pareceu surreal, um sonho a ser realizado. Apesar de ter consciência de que estava fora do meu país, senti-me tão segura que custou-me a acreditar que realmente tinha apanhado aquele avião... Foi a primeira viagem que fiz de avião e vim com os meus irmãos.

Hoje é o meu último dia por aqui e já me está a chegar a nostalgia, por saber que falta um tempinho para voltar a ver os meus tios e os meus primos... Custa-me ir embora e deixá-los aqui, mas a vida é assim e sei que aqui estão melhor.

Fica a promessa de voltar assim que consiga, e o fascínio por um país que embora seja desenvolvido tem uma aparência rústica e natural.