Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Em Busca de Um Sentido

Desabafos meus...

Sempre fui uma pessoa que escreve para outros. Não escrevo para agradar quem me lê, mas raramente escrevo sem destinatário, nem que o fim seja apenas criar aquilo que preciso ouvir.

Onde quer que vá surgem-me ideias e temas que captam a minha atenção e me fazem sentir próxima daquilo que sou e do que poderei vir a ser. Tenho uma mente hiperativa e a maior parte das vezes a minha ansiedade surge dessa atividade excessiva de análise a tudo o que vejo e acabo por absorver.

Considero-me distraída das coisas óbvias. A maior parte das vezes o que me é mais próximo é o que me passa ao lado. Como o prédio que foi pintado há dois meses e só agora me chamou a atenção, ou a janela que não fechava e de repente, após dias e dias a usá-la me apercebo e "desde quando isto funciona?". A minha atenção voa para outras coisas e geralmente envolve a criança que se ri na rua, o velhote que coxeia, o cão que corre aos saltos, o rosa das flores e daí parte para o meu futuro e para todos os significados que atribuo ao que observo.

Escrever sobre o que penso nessas alturas faz-me crescer e alimentar uma sensibilidade que é crescente e que nunca me abandona, mesmo quando quero parecer dura e menos criança... A verdade é que gosto de ver o mundo do castelo que construí e apenas agora estou a aprender a misturar-me ao que admiro e ao que me faz sentir leve...

Realmente tornei-me a melhor casa para se viver e isso enche-me o coração de sentimentos bons, mesmo que todos os meus dramas por vezes ameacem os alicerces, sei que sou firme.

Confia...

Por vezes, a autosuperação não tem a ver com conseguirmos atingir marcos grandes e visíveis nas nossas vidas. Por vezes, conseguirmo-nos olhar ao espelho e sentir orgulho do que somos, sem peso na consciência, sem "e se", sem todas essas pequeninas coisas que nos fazem ficar para trás já é uma grande evolução e por isso devemos sentir que nos estamos a superar e a melhorar.

Nem todos os dias são bons dias. Muito menos te posso garantir que a partir desse incrível momento, todas as vezes que o teu companheiro for o espelho te vais sentir incrível. É normal haver baixos no meio dos bons momentos e são esses que nos fazem crescer como pessoas. Mas, por outro lado, posso dar-te praticamente a certeza de que no dia em que conseguires encarar a vida como uma sequência de momentos que te faz ser cada vez mais e melhor vai ser bem mais fácil sair dos baixos.

Vão existir noites difíceis. Não te minto. Vão existir segundos em que vais querer jogar tudo ao chão e gritar "desisto", mas o mais importante é conseguires ter força para fechar os olhos, respirar fundo e acreditar que amanhã o sol vai brilhar e vais superar esse obstáculo. Eu sei que és capaz, e tu bem no fundo também o sabes. Confia. E sê feliz.

Este é o caminho...

Algures na minha vida decidi que uma das melhores formas de desabafar é escrever. Aliás, não foi uma decisão que tomei do dia para a noite, foi algo que foi fazendo parte da minha rotina, desde que me lembro de saber ler e escrever.

Com o passar dos anos, as responsabilidades aumentaram e o tempo livre diminuiu. À medida que eu me tornei cada vez mais exigente com tudo o que assumia como meu, acabei por entender que me estava a afogar numa angústia imensa sem que houvesse justificação.

Eu era uma miúda com uma vida normal, que se focava bastante na escola e se esquecia de viver o que se passava à sua volta. Apercebi-me, já no secundário, que me fazia falta escrever, andar com o meu caderninho atrás e despejar tudo o que me vem à mente, nem que seja uma simples frase.

No 12º ano comecei a fazer voluntariado e entendi que essa era outra das peças que me fazia falta, porque me faz sentir útil, mesmo que por coisas bastante simples que acabam por marcar a diferença.

A tudo isto juntou-se a fotografia, nem sei bem como, nem porquê. Quando percebi a paixão era quase tão grande como a que sentia pela escrita. Por momentos, chegou mesmo a substituir a minha necessidade de escrever.

O primeiro ano em Lisboa foi complicado. Foi o ano em que cresci mais, aliado ao facto de ter feito algumas mudanças bruscas na minha vida. Desleixei-me na escrita, na fotografia e no voluntariado. Estive o ano praticamente todo bastante instável emocionalmente, cheguei a estar doente semanas seguidas. Nunca soube as razões de tanto alto e baixo.

Mudei de curso. Tenho o triplo do trabalho, escrevo, saio por aí a captar momentos e dou aulas uma vez por semana na Universidade Sénior, de fotografia.

Estou no fim do primeiro semestre do que considero que vai ser o resto da minha vida profissional, com pouco tempo para respirar, mas realizada e cada vez mais empenhada.

Onde está a miúda instável? Não sei, mas deixe-se estar onde ficou, porque estou a gostar bastante do rumo que tudo está a levar.

Que assim seja...

Encontro-me sentada em frente de um dos homens que me viu crescer. Posso até dizer que foi e é uma das pessoas que mais me ensinou e continua a ensinar o que é ser-se humano. Sem estudos, sem saber escrever ou ler, é das pessoas mais humildes e sensatas que eu conheço. 

Queria não estar aqui. Queria estar em frente à televisão, com uma mesa cheia de livros, perto do vinho e da aguardente que ele próprio faz. Tudo o que tenho neste momento é uma cama de hospital, e a mão dele para me confortar, enquanto diz piadas para que eu fique menos preocupada. 

Tem mais de oitenta anos, e nunca usufruiu da reforma que tanto merece. Em ar de brincadeira digo-lhe que estes dias são só umas férias das abelhas, que são a sua paixão. Tudo o que eu quero é que ele fique bem, que ele fale do que é preciso para curar as diversas doenças que esses bichinhos irritantes têm, que ele me explique que as abelhas são como nós, simplesmente não falam. 

Podemos vir a passar o Natal por aqui... Mas que assim seja, desde que o resto do ano que aí vem o passe em casa, saudável e capaz de me contar tantas vezes quando possa tudo aquilo que me conta desde que eu sou pequenina e que eu continuo a ouvir e a questionar como se fosse a primeira vez.

Hoje é o teu dia...

Avô, fazes anos. 

Tenho receio de me tornar cansativa, de fazer com que deixem de me ouvir. Será que me acham louca por continuar a alimentar esta ideia de que algures no Universo me ouves, ou até me lês?

Avô, hoje é o teu dia. Até à eternidade, dia 3 de dezembro será o teu dia. Será o dia em que eu recordo tudo o que a tua presença me trouxe. Será o nosso dia. Este dia vai estar reservado para eu te contar tudo o que se passa na minha vida.

Sei que parece parvo eu estar a dizer-te isto quando todos os meses, ou até semanas, te escrevo com esse objetivo... No entanto, eu sei que esta rotina vai começar a desfazer-se... As palavras para ti vão sendo mais escassas, não por não saber o que te dizer, mas porque tenho receio de me tornar repetitiva. Sei que não me julgas, que gostas de ver que te recordo de coração cheio... Mas e se a longo prazo isto não me fizer bem?

Não quero viver presa a um momento que me marcou de uma forma menos boa, quando tenho tantos outros para recordar. 

De qualquer das formas, queria dizer-te que eu me lembrei de que hoje é o teu dia. Parabéns, onde quer que estejas.