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Em Busca de Um Sentido

Vou enviar-te todo o amor que te tenho...

Nas sombras da noite vem-me à memória o teu rosto, num ar brincalhão, sempre com uma piada na ponta da língua e com um ar compreensivo... E é nestas alturas que eu percebo o quanto te eternizei na minha vida, o quanto tenho de ti como referência e o quanto me vou enchendo de saudades por saber que o abraço não volta e que os risos também não.

Nem sempre o digo, mas todos os dias me lembro de ti e sinto a falta que me faz ouvir uma história tua, mesmo quando é repetida e me mostra o quanto sou privilegiada por ter tido a sorte de te ter um dia, porque ter-te permitiu-me chegar aqui... Querer dar-te um mundo cheio de maravilhas, trouxe-me o sonho da menina que te chegou a casa assustada com as possibilidades que a vida lhe estava a oferecer.

Sei que o amor era mútuo, sei que, estejas onde estiveres, te enches de orgulho dos teus netinhos e de tudo o que alcançaram até hoje... Pelo menos gosto de acreditar nisso... Mas este vazio continua, e esta vontade de proteger tudo e todos só se intensifica com a tua ausência, porque de alguma forma, para além de tudo o que me ensinaste, também me deste a noção de fim, a noção de que o que está aqui hoje, pode não estar amanhã.

Foste a alegria de uma casa que nem sempre queria estar animada, foste o calor nos dias frios e foste a sabedoria para uma menina que tinha tanto que nunca teve noção do que era pouco... Mesmo nos momentos em que me olhavas com um ar perdido, sem te conseguires orientar, foste a calma e a compreensão, e isso diz tudo sobre a pessoa que foste na minha vida.

As lágrimas hoje são menos. O tempo passa e com ele vem a aceitação... Mas há dias que são mais intensos. Hoje foi um deles. Passei o dia contigo na cabeça e vou adormecer a enviar-te todo o amor que te tenho, pode ser que algures no universo estejas a recebê-lo... 

Eu e o mundo...

Por vezes acordo com vontade de te escrever acerca do que nunca chegámos a viver, mas que planeámos até à exaustão. Todas as viagens, todos os restaurantes, todos os cantos e recantos de uma cidade que viu nascer um amor e também o viu ir...

No meio do turbilhão de emoções que me iam ocupando a mente, a adrenalina foi desvanescendo e ficou apenas um enorme carinho que se pode confundir com tantas outras coisas e que fui aceitando, como se nunca fosse merecer mais do que um amor calmo e sereno, tão sereno que se torna apenas o estar e não o ser.

De tanto te querer, deixei o momento passar e deixei com isso irem todas as coisas bonitas que um dia dissemos olhos nos olhos, que tanto sentido faziam e que hoje me apertam o coração. Não é que eu não o quisesse... Mas há mais para lá das cortinas que se fecham quando eu me foco apenas em criar uma fantasia do par perfeito e não consigo ver que às vezes as coisas não são para ser e que existem os meus próprios limites, que não quero ultrapassar.

Para além de ti, existo eu. Um dia que não estejas, vou estar eu. E se eu não estou serena, como podemos estar nós? Se eu não gosto do silêncio quando estou aqui, como posso gostar quando estás tu?

Nunca digo nunca, aprendi com os meus erros... Também deixei as despedidas para outro dia... Mas para hoje quero isto. Eu, as minhas letras salpicadas em folhas velhas, os meus livros que foram acumulando nas prateleiras e o mundo que vou descobrir sozinha, por agora.

Havia o mundo para descobrir...

Tinhas tudo para ser o amor de uma vida, mas algures no tempo o destino quis pregar-nos uma partida e isso não aconteceu...

Quis durante anos que todas as minhas inseguranças se desvanecessem, de forma a ter direito a uma história digna de uma comédia romântica... Só passado muito tempo entendi que a vida podia ser muito mais do que isso... Que havia o mundo para descobrir, tanto o exterior quanto o interior...

Infelizmente o teu amor não me era suficiente... Era como um abraço muito apertado. Apertado demais. Sufocante. Não me deixava respirar. Eu não conseguia olhar para além desse aperto, para além do horizonte que sem intenções me impunhas...

Havia a história que íamos construindo... Ou que tu construias e eu aceitava, confesso que tudo são memórias perdidas... Vamos viver juntos um dia. Eu sabia que não aconteceria. Não era falta de amor por ti, era falta de amor por mim. Como seria possível viver o que me davam, se eu nunca tinha sido capaz de agarrar o que tinha para mim? 

Por vezes acreditei que estava pré-destinada a fracassos amorosos... Tudo haveria de estar aquém das minhas expectativas... Sempre quis mudar tudo, para que ficasse à minha medida, à medida dos sonhos que escrevo em folhas soltas... Olha para mim, agora, a viver um amor com tudo o que tenho, passados tantos anos...

Em todos os sonhos e textos bonitos em que te inclui, estava uma pessoa a escrever que não era eu... Transformava-me em alguém que oscilava entre um estado de perdição de amor e um outro estado de raiva que desconhecia em mim. Num dia queria casar contigo e nunca mais te deixar, para que no dia seguinte te fechasse a porta na cara, após mais uma briga sem noção.

A ti só tenho que agradecer. Pelo bom, pelo menos bom e pelas marcas que deixaste. Marcas essas que me mostram aquilo que não quero para mim e aquilo que não quero ser para os outros. Contigo fui a pior versão de mim própria.  A versão que se odiava e que odiava o mundo. A culpa nunca foi tua... Aliás, ninguém teve culpa. Sabes disso, não sabes?

Crianças a querer viver amores de adultos são só amostras de sonhos que não se concretizam... Cada segundo foi uma aprendizagem e lidar com a falta que escolhi ter fez-me entender que tenho que estar sempre em primeiro lugar, seja em que situação for. Primeiro a minha sanidade mental. Primeiro o meu equilíbrio. Primeiro o meu sorriso. Primeiro tudo o que me faz sentir viva... E eu tinha-me esquecido. 

Querida ansiedade...

Querida ansiedade,

Escrevo-te para te pedir que me deixes viver a minha vida com calma, sem ter a constante necessidade de ter controlo de tudo e sem sentir que tenho que ser perfeita. Sei que sou uma casa confortável para ti, por pensar demais e por ser preocupada com tudo o que me rodeia... Torna-se fácil para ti alastrares-te como um tremor de terra por todo o meu corpo e fazeres dos meus olhos nascentes de um rio.

Nem sempre consigo proteger-me de ti, há alturas mais sensíveis do que outras, mas se sabes que não preciso de ti, porque ficas? Qual é a necessidade de me tirares os pés do chão e trazeres-me pensamentos que não me deveriam pertencer?

Chegas e fazes com que eu perca a noção de tudo, seja tempo, tarefas ou até mesmo local. Chegas e impedes-me de ser a jovem pacífica que deveria ser, fazendo com que me torne um poço de medos e inseguranças que não consigo afastar. Bloqueias-me os pensamentos, ao ponto de precisar de estudar e não conseguir sequer fazer algo que sabia de cor há pouco tempo. Tiras-me o sono, o apetite, a vontade de rir e fazes de mim alguém instável, alguém que não quero ser...

Parece que quanto mais te combato, mais crias raízes no intímo do meu ser, sem autorização ou aviso prévio. Podes, por favor, dar-me uma oportunidade de viver sem ti e conseguir aproveitar tudo o que o mundo tem para me oferecer? Estás a prender-me. E isso dói... Dói tanto. 

Procura a felicidade noutro lado, porque eu preciso disso para ser feliz. Obrigada,

Tatiana

Meu avô...

Querido avô,

Escrevo-te para te tranquilizar, porque vai ficar tudo bem. Apesar de saber que a tua ausência nos dói, eu também tenho noção de que as boas memórias, aos poucos, vão atenuar tudo aquilo que me faz ser melancólica e pensar em ti como algo que perdi.

Sei que apesar de ter perdido o teu abraço, o teu carinho e todas as palavras que me dizias, não perdi os ensinamentos que me deixaste... Para além disso, quero que saibas que também não perdi a memória do brilho do teu olhar quando observavas a tua família.

Caso estejas por aí a ver-nos, não estejas preocupado... Vai passar. A saudade não, mas a revolta, a necessidade de chorar e de nos isolarmos, tudo isso vai passar. Apenas é complicado mentalizarmo-nos de que cada vez que entrarmos pela porta da tua casa, já não vamos mais ouvir "olha os meus meninos"... Vai ser só o silêncio de um lar que já teve tudo e era quente e agora está gelado.

Uns lidam melhor com a tua ausência do que outros. Confesso que não sou a que lida melhor... Mas fica descansado, eu vou aprender que isto é a lei da vida, que ninguém cá fica e que felizmente eu dei-te de mim tudo aquilo que pude, para que hoje, quando me deitar à noite, as lágrimas não sejam de arrependimento, mas sim de saudade... Uma saudade que me queima a garganta e faz com que me sinta vazia.

Talvez leve meses, ou até mesmo anos, mas eu vou deixar de sentir este vazio, porque vou enchê-lo com todo o amor que sinto por ti e pela família que somos... Estejas onde estiveres, não te esqueças que tudo o que somos, também o devemos um bocadinho a ti, e por isso, um grande obrigada.

Agradeço-te pelos ensinamentos, pelas risadas, pelo carinho, pela preocupação... Principalmente agradeço-te por me teres como parte de ti, quando quem devia tê-lo não teve. És o meu avô e isso ninguém me tira.

Descansa em paz, nós estamos bem.

A tua netinha