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Em Busca de Um Sentido

M Ã E

Quando era miúda gostava de brincar com as letras das palavras e tinha imensa necessidade de escrever o quanto gosto da minha mãe. Como não era capaz de lho dizer acabava por escrevê-lo algures. Neste caso, escrevi num dos cadernos com que andava sempre.

A Tati Escreveu.png

Mãe é uma palavra de 3 letras,

M de mimos,

A de amor,

e E de energia.

Quando está doente,

Sentimos dor,

Quando a noite está fria,

Ela agarra-se a nós

Para sentirmos o seu calor.

É como uma rosa

De que a Natureza precisa!

Sem a nossa mãe

Não éramos ninguém!

A minha mãe...

É uma das pessoas que nunca

Vou esquecer,

Não a quero perder!

Ela é querida, bonita

E muito mimosa.

A minha família!

Há pessoas que sem saber se tornam a sorte da vida de outras. Aparecem, conquistam e tem para si um conjunto de corações que não roubaram, mas que são seus em segredo.

Há quem seja naturalmente iluminado... Há quem tenha uma luz gigante, e apesar da área que ilumina nem desconfia que o faz... Há quem alcance o carinho de meio mundo, sem notar... Há quem contagie quem está à sua volta com uma alegria maravilhosa...

Assim o é o meu pai. Pai que o é porque lhe ganhou o direito, porque abdicou da sua liberdade para dar um futuro a três crianças, porque tem os braços sempre abertos, mesmo sabendo as dificuldades que podem surgir. Pai que o é porque eu deixei que o fosse, mesmo que ao início lhe tenha negado o acesso ao meu pequeno coração.

Conquistou-me por inteiro sem grande esforço, e aos poucos fui-me entregando ao amor que me era dado por alguém que não tinha obrigação de o dar.

Atrás dele veio toda uma família, a minha família. Os meus avós, os meus tios, os meus primos. Mais uma vez, ninguém tinha a obrigação de me acolher, mas todos o fizeram e permitiram que eu invadisse um espaço que não deveria ser meu, mas que me foi oferecido com o maior carinho do mundo. Sou apaixonada por cada uma destas pessoas, e mais do que isso, sou imensamente grata por tudo o que me proporcionaram e continuam a proporcionar.

São a família que eu não tinha, mas que ganhei. São o exemplo do que é ser-se genuinamente bom.

Algures num momento de tristeza observavam-me abraçada à minha avó, a chorar a morte do meu avô, e ouviu-se "parece mesmo neta". Hoje dou a resposta que não fui capaz de dar na altura.

Não pareço, sou.

Adquiri o direito de me dizer neta, mesmo que os genes sejam outros. Tal como cada um deles me conquistou e permitiu que eu desse o que tenho de mais doce e puro: o meu amor de neta, sobrinha, prima... Filha.

Somos uma família e assim vamos permanecer, mesmo que estas palavras nos magoem. Porque família é quem cria, cuida e mima e não quem vira as costas à mínima dificuldade.

Somos a família que escolhemos e que surgiu através de um amor lindo que é o dos meus pais.

Amo-vos.

A minha Véspera de Natal

Entre risos, doces e calor humano encontrei o espírito natalício que tinha deixado algures entre idas ao hospital e tardes de estudo que me pareceram infinitas, mesmo que o conteúdo reflita tudo aquilo que quero na minha vida.

Tenho a minha família por perto, nem que seja no coração... Isto mesmo sabendo que a avó, por teimosia, quis passar a noite de Natal sozinha.

Este Natal tem um sabor agridoce, porque embora seja o primeiro que vou passsar depois de perder o meu avô paterno, estou a passá-lo em casa, e não no hospital com o meu outro avô.

De Menino Jesus, como dizem as minhas avós, só peço saúde e força para que consigamos continuar esta caminhada de cabeça erguida e mãos dadas. 

Este ano iniciamos uma nova tradição, que pretendo que se mantenha. Visto que já não há crianças pequenas entre nós, fizemos Amigo Secreto. Vai ser giro, uma vez que neste momento ainda não chegámos à meia noite, e portanto, não se fez a troca de prendas.

A noite começou com a recolha de telemóveis, pelo meu pai, para que pudessemos conviver sem a interferência de telecomunicações... Embora isto tenha durado menos de duas horas, foi o suficiente para que se criasse tema de conversa para a noite toda e para que começasse um filme que estamos a ver em conjunto na televisão.

Tudo isto serviu para que o meu coração ficasse bem quentinho... É bom ver que apesar de todas as diferenças existentes entre nós, somos uma família unida.

Espero que isto se mantenha durante longos anos, mesmo que o meu espírito natalício apareça quase fora de horas.

No final das contas sou uma sortuda e sou imensamente feliz por assim o ser.

***

Entregues e abertas as prendas, com direito a papel de embrulho espalhado por tudo quanto é canto, posso dizer-vos que sou uma criança feliz. Pela prenda que recebi? Não. Pelas risadas que demos em família com as imitações que fizemos uns dos outros, para mostrar quem seria o dono da prenda que se tinha na mão... Até o meu avô, mesmo cansado, teve forças para imitar alguém.

Foi um dos melhores Natais que tive, por isto mesmo... Pela família que somos, pelo amor que transborda o meu coração... 

Sou feliz, e vou dormir feliz. A vocês desejo-vos um dia de Natal repleto de coisas boas!

Que assim seja...

Encontro-me sentada em frente de um dos homens que me viu crescer. Posso até dizer que foi e é uma das pessoas que mais me ensinou e continua a ensinar o que é ser-se humano. Sem estudos, sem saber escrever ou ler, é das pessoas mais humildes e sensatas que eu conheço. 

Queria não estar aqui. Queria estar em frente à televisão, com uma mesa cheia de livros, perto do vinho e da aguardente que ele próprio faz. Tudo o que tenho neste momento é uma cama de hospital, e a mão dele para me confortar, enquanto diz piadas para que eu fique menos preocupada. 

Tem mais de oitenta anos, e nunca usufruiu da reforma que tanto merece. Em ar de brincadeira digo-lhe que estes dias são só umas férias das abelhas, que são a sua paixão. Tudo o que eu quero é que ele fique bem, que ele fale do que é preciso para curar as diversas doenças que esses bichinhos irritantes têm, que ele me explique que as abelhas são como nós, simplesmente não falam. 

Podemos vir a passar o Natal por aqui... Mas que assim seja, desde que o resto do ano que aí vem o passe em casa, saudável e capaz de me contar tantas vezes quando possa tudo aquilo que me conta desde que eu sou pequenina e que eu continuo a ouvir e a questionar como se fosse a primeira vez.

Hoje é o teu dia...

Avô, fazes anos. 

Tenho receio de me tornar cansativa, de fazer com que deixem de me ouvir. Será que me acham louca por continuar a alimentar esta ideia de que algures no Universo me ouves, ou até me lês?

Avô, hoje é o teu dia. Até à eternidade, dia 3 de dezembro será o teu dia. Será o dia em que eu recordo tudo o que a tua presença me trouxe. Será o nosso dia. Este dia vai estar reservado para eu te contar tudo o que se passa na minha vida.

Sei que parece parvo eu estar a dizer-te isto quando todos os meses, ou até semanas, te escrevo com esse objetivo... No entanto, eu sei que esta rotina vai começar a desfazer-se... As palavras para ti vão sendo mais escassas, não por não saber o que te dizer, mas porque tenho receio de me tornar repetitiva. Sei que não me julgas, que gostas de ver que te recordo de coração cheio... Mas e se a longo prazo isto não me fizer bem?

Não quero viver presa a um momento que me marcou de uma forma menos boa, quando tenho tantos outros para recordar. 

De qualquer das formas, queria dizer-te que eu me lembrei de que hoje é o teu dia. Parabéns, onde quer que estejas.