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Em Busca de Um Sentido

Rosas

Sempre procurei uma fragrância que me acalmasse e me fizesse sentir em paz na minha própria mente... Como se eu caminhasse num jardim paradisíaco mesmo estando enrolada nas mantas de sempre, na cama de sempre... Algures no meio dessa procura percebi que tentava associar o odor das pessoas que me eram queridas à minha paz interior e cheguei a usar o perfume da minha mãe para que mesmo longe me sentisse perto o suficiente...

A longo prazo não resultou, porque apesar de a minha mãe me transmitir imensa calma, nunca alguém vai ser o meu lar, mesmo que eu queira passar todo o tempo do mundo entre os braços de quem me viu crescer.

E como cresci... Mais ainda do que se pode ver a olho nu... Sentada numa cama que não posso dizer que é a minha, cheia de saudades de casa, entendi que são as rosas que ganham o meu coração...

Durante anos achei que baunilha era o meu cheiro e sei que muita gente se lembra de mim sempre que sente essa fragrância... Mas aqui, a ouvir a chuva cair numa cidade que há bem pouco tempo não me conhecia, descobri que o cheiro da minha paz esteve sempre ao virar da esquina e são as rosas... Rosas que me fazem lembrar a pureza e inocência que um dia tive... Rosas que me recordam cheiros de memórias longíquas...

Talvez o frasco de perfume partido não tenha sido um mau presságio... Talvez o universo estivesse a conspirar a meu favor para eu entender que afinal a minha calma esteve sempre nas rosas...

Objetos perdidos. Ou serão histórias?

Vou passeando por ruas que nunca conheci e dou com objetos que não deviam fazer parte daquele local. Restos de pessoas que lhes podiam ou não ter apego, mas ainda assim, restos de pessoas. E sou incapaz de não pensar no que uma simples "coisa" pode dizer sobre alguém e o quanto os nossos objetos nos caracterizam e marcam.

Pergunto-me se o que agora observo não fará falta a quem o perdeu... Ou se por outro lado, foi deixado ali com uma intenção que me é desconhecida, mas que mesmo assim me intriga e me faz pensar no porquê de aquilo ali estar. Que histórias contaria se pudesse falar? 

O anel deitado fora pela janela de uma casa outrora feliz, mas que agora se veste de luto para virar costas a um casamento terminado. O guarda-chuva partido, abandonado, porque de um dia para o outro perdeu a única utilidade que realmente tinha. A chupeta deixada cair pela criança irrequieta, sem que os olhos de quem a carrega dêm pela perda que ainda vai gerar horas de choro. A esferográfica que escreveu desde cartas de amor a apontamentos naquelas aulas monótonas que os adultos garantem ser o nosso futuro... Eu bem sei o que é ter objetos preferidos e deixá-los sei lá onde, à espera que por milagre regressem a mim.

E no meio da minha divagação quero dizer-me grata por tudo o que tenho e que não perco. Por tudo o que sendo material, me faz falta e me deixaria com um enorme vazio caso desaparecesse. Seja a caneta dada pelo meu irmão naquele 14 de novembro e que me suportou nos exames com um "never stop dreaming"... Ou então as castanholas que animavam o centro de dia pelas mãos do meu avô, e que agora me recordam a alegria que ele transmitia... Ou ainda a pulseira feita pela minha irmã numa altura em que íamos deixar de estar constantemente juntas, e que eu uso religiosamente...

Objetos que fazem parte do que sou e de quem tenho no coração. Objetos aos quais atribuo demasiado simbolismo, mesmo sabendo que o verdadeiro significado está no sentimento e não no físico. Mas ainda assim objetos de um valor incalculável e bem mais ricos do que qualquer outra coisa...

E por isso me pergunto... Que histórias perdidas estarão por detrás de cada objeto deixado por aí, sem querermos?

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