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Em Busca de Um Sentido

Relações que nunca chegam a amor...

Acordei. Será que eles fazem ideia do barulho que estão a fazer? Discutem vezes e vezes sem conta os mesmos assuntos, as mesmas coisas sem qualquer tipo de significado que só mostram que o elo que um dia existiu está mais que quebrado e não há previsão de retorno.

Ela é o doce que cresceu no campo, presa pela ideia de que mulheres só em casa, mulheres não prestam, mulheres só devem ser usadas, mulheres não estudam... Ele é a pessoa que cresceu num meio de repressões, sem nunca poder ser feliz, sem sequer perceber que se tornou uma pessoa desprezável ao negar a si próprio aquilo que é… Encontraram-se e destroem-se. Nunca foram felizes, mas fingem que se amam.

Vejo de longe que sou fruto de uma relação que desde o início tinha como destino um final tenebroso, mas que felizmente aconteceu. Estou aqui e eu sou parte desta história que se irá prolongar até que eu lhe meta um ponto final.

Hoje pode ser a realidade, mas amanhã era uma vez e não vai passar de um conjunto de palavras que eu articulei para escrever um molho de folhas que irá ser queimado no meio de documentos e fotografias velhas que os meus netos e bisnetos poderão encontrar, sem saber de onde vem tudo aquilo ou que caras são aquelas.

Sei que os gritos não vão acabar, tenho que sair daqui o mais rápido possível. É de noite, deviam estar a dormir e não a discutir de quem é o quê. Deviam saber que estou aqui, que percebo tudo. Ficam cegos quando falam alto um com o outro. A jarra caiu. A maldita jarra está partida no chão do corredor.

Mãe? Não fujas, eu estou aqui. Eu sempre estive aqui. Não lhe toques, ela é a minha mãe. Sai daqui. Vai embora. Não te quero aqui. Mãe, não quero ir para a cama outra vez, ele é mau. Não quero sair de perto de ti.

Há amores que nunca chegam a ser realmente amor. Todos os que estão fora veem, mas tu, inocente, achas que está tudo bem. Não queres negar-te a oportunidade de fugires da aldeia e teres uma vida tua. Sabes que ali pode estar uma solução, sem sequer parares para perceber que te estás a entregar nas mãos de alguém que não te vai dar o caminho que procuras. Nunca te achaste merecedora de um carinho, nunca foste capaz de te autoavaliar como alguém que merece mais do que um sorriso. Mas eu digo-te... Mereces tudo.

[este texto é apenas ficção]

Metáforas minhas...

E como que por um ato de magia estou aqui, a ver o sol pôr-se e a ouvir o mar revoltar-se com uns meros grãos de areia... Atribuo ao momento um certo simbolismo, talvez obscuro, mas que me conforta e me faz sentir compreendida.

Tal como o dia que termina, também a nossa vida tem fases que acabam, e por mais nostálgico que possa ser, é maravilhoso observar esta correria, vivendo sempre como se não existisse o antes e o depois. A verdade é que tudo neste mundo é composto por ciclos, e mesmo que uns sejam mais curtos do que outros, nenhum toma maior relevo.

Nada há mais bonito do que ver que mesmo com todo o conforto que o conhecido nos traz, conseguimos viver como se tudo nos fosse desconhecido. Continuamos a abraçar cada ocasião como se fosse o primeiro contacto com aquela realidade.

É como o mar quando se mistura com a areia... Embora seja um casamento antigo, todo aquele atrito incomoda e parece tudo novo, ou até primitivo. O mar lida com a areia como se não fosse suposto que ela ali estivesse, mune-se de um certo egoísmo, que na quantidade certa faz com que a união prevaleça. Finge não conhecê-la, mesmo sabendo que aquilo é o seu mundo.

Embora tenham a sua identidade definida, são um conjunto indivisível. 

E lá vai o mar, a descer, a afastar-se, a desistir de estar aqui... Mas não te preocupes. Amanhã de manhã estamos de pazes feitas e ele volta. Volta sempre.

Queria dizer que te amo...

E hoje eu queria dizer que te amo. Amo-te com todas as minhas forças e isso faz doer. Faz doer porque sinto a tua falta no segundo exato em que a tua mão deixa a minha. Abandonada e sem rumo. Fica a minha mão e fico eu, num daqueles momentos em que sinto o calor da tua pele, mas olho-me e vejo-me sem ti.

Talvez nenhum amor seja eterno, e se assim o for o nosso não irá ser exceção. Mas não é tão bom viver um amor finito como se fosse infinito? Não é tão bom imaginar o dia em que teremos tudo, mesmo que nunca cheguemos a juntar as nossas vidas para serem uma só?

Num daqueles raros e loucos momentos em que digo que te amo, talvez te diga que não sei viver sem ti. Não quero que sintas que te minto, mas a verdade é que sei, porque no fundo basta-me respirar para estar viva. A diferença entre ter-te e não te ter equivale a conhecer-me viva e com impulsos ou perdida à deriva neste mundo de fantasia que criei só para nós.

Dou por ti a observar-me e peço-te que pares. Mas não pares, está bem? Eu fico envergonhada, mas gosto que me olhes como se eu fosse uma obra de arte. Gosto que me admires como se admira uma escultura, como se admira a técnica utilizada para aproximar a imaginação da realidade. Não é isso que a arte é? Uma aproximação à realidade do ponto de vista de quem se denomina artista.

Tu podias ser pintor, sabias? Pela delicadeza com que me olhas, pelos detalhes que de mim decoras chego a crer que se te fechassem os olhos e te oferecessem papel e caneta serias capaz de me recriar com uma precisão de mestre, incluindo até a mais pequena das cicatrizes.

Sei que receias magoar-me. Apercebo-me de tal sempre que faço beicinho e vejo o teu ar desesperado de quem procura uma razão sem a encontrar.

Mas ouve-me. Por favor, ouve-me quando te digo que o meu tamanho não retrata tudo o que sou capaz de aguentar, e embora te confesse que aos poucos a muralha vai caindo, ainda tenho a estrutura principal intacta, acho que sempre vou ter.

Por isso te digo... Se um dia quiseres ir, vai... Vai sem olhar para trás... Vai sem medos. Vai, porque um amor pode não ser eterno, mas a memória é eterna até que me falte o ar e a que mantenho de ti é doce, tão doce que vou mantê-la guardada, não vão as formigas quere-la para elas. Sabes como é.

O que é meu, fica. Fica sempre. E tu és do mundo, de um mundo que não me pertence, e por isso te digo: se quiseres ir, vai e sê livre, porque em mim estás sempre.

Só queria dizer que te amo...

20? Já?

Os últimos dias têm sido uma mistura de nostalgia com felicidade, com poucas horas de sono, mas com tudo feito a tempo e horas.

Quando fiz dezoito anos pouca foi a mudança que senti. Continuava na casa dos meus pais, com o mesmo namorado de sempre, com o grupo de amigos de sempre, a matar-me a estudar para ser médica. Parece que foi tudo noutra vida. Por vezes chego a sentir que nesse momento eu era uma mera espetadora da minha vida e que não vivia realmente tudo o que era suposto.

Faço 20 anos, hoje. E por alguma razão apetece-me comemorar, viver, aproveitar cada segundo. No entanto, começo a sentir o peso que é dizer "tenho 20 anos". Não soa estranho? Quando foi que o tempo passou, que eu não dei por isso?

Sem ser quando era criança, nunca vi o meu aniversário como o meu dia, apenas gostava deste dia porque significava que ia conseguir juntar todas as pessoas que realmente importavam na minha vida. 

Hoje olho para trás e vejo o quanto a minha vida mudou em dois anos, e com ela mudei eu. De repente vi-me a morar em Lisboa, e a única coisa que me prende ao Alentejo é a minha família. Como por magia a menina que cresceu a querer ser médica percebeu que giro, giro era ser engenheira na área e poder ter saúde, matemática e física para o resto da vida.

E assim, sem mais nem menos eu sinto-me uma adulta, a viver realmente a minha vida, a tomar decisões importantes... Mas acima de tudo a aproveitar o que o mundo tem para me oferecer, e com um círculo completamente novo de pessoas à minha volta, pessoas essas que me entendem, que me apoiam e que se mantêm aqui, mesmo naqueles dias em que todo o meu mau feitio surge.

Para essas pessoas, um enorme obrigada. Hoje é o nosso dia, porque tudo o que sou, devo-o um bocadinho a vocês!

Querido avô...

Queria estar a escrever-te neste momento para te dizer que dói menos... Queria dizer-te que sou forte, que aguento a tua ausência, embora não te esqueça... E sinto-me fraca, tão fraca, quando tudo o que te posso dizer é que me custa ir a casa. Custa-me a ideia de chegar lá e a tua cama estar vazia. Custa-me saber que dizer "o avô" é suficiente para me virarem as costas, porque cada um lida com a dor como pode, e a minha dor arde como fogo, mas chama por ti a cada segundo.

Tenho necessidade de falar de ti. Tenho necessidade de ver o teu sorriso quando ainda tinhas forças. Eu só queria que o mundo fosse de outra forma, só queria que te tivessem dado tudo o que precisavas, para além do imenso carinho que a tua família te dava.

Quem tratava de ti não via o meu avô, quem analisou os teus exames não via o homem que existia... Ninguém viu tudo o que um dia foste, e que deixaste de ser. Deixaste de o ser por culpa deles, só por culpa deles. Culpar a idade é ser hipócrita, porque a idade não ataca do dia para a noite, é um processo gradual, é algo que se vai notando e não uma chapada repentina.

A tua partida fez-me ter medo. Sei que não devia dizê-lo, devia manter-me calada, viver a minha vida e fingir que estou bem. Mas, avô... Eu não quero perder mais ninguém, consegues perceber isso?

Por muito que os dias sejam complicados, que me custe lidar com tudo o que vou sentindo, a dor não sai daqui... A dor fica, fica sempre. Aceitei que não podias ficar cá para sempre, embora eu o quisesse, mas não me consigo habituar... Achas que esse dia vai chegar?

Estejas onde estiveres, acredita em mim quando te digo que vou ficar bem. Estejas onde estiveres, está descansado, descansa tudo o que a vida não te permitiu descansar e confia nos ensinamentos que deixaste a cada um de nós.

Avô... Amo-te.

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