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Em Busca de Um Sentido

Mudei, cresci.

Quão parva uma miúda precisa de ser para se conseguir superar e corrigir tudo aquilo que achou que seria o seu destino?

Por momentos fui feliz, mas foram mais os momentos em que fugi do que me fazia bem. Existem pessoas que gostam do caminho mais difícil, talvez eu seja uma dessas pessoas... Apesar disso, estou a gostar de tudo o que estou a sentir e consigo aproveitá-lo de uma forma que desconhecia em mim.

A verdade é que até agora nunca tinha tido tempo para me preocupar comigo, porque o meu foco era tapar buracos, justificar atitudes que só a mim me diziam respeito, nunca me permiti meter-me em primeiro lugar... Hoje dou por mim a querer retirar tudo o que disse, a querer ser mais ponderada...

O tempo fez-me crescer... Sei que olham para mim e conseguem ver uma mulher a aparecer, embora continue a vestir a roupa da menina que um dia fui. Cheguei a acreditar que tudo o que habitava em mim era amor pela minha família e uma indiferença geral pelo mundo que me rodeia. Descobri tudo enterrado sei lá onde, num lugar que achei nunca encontrar. Descobri toda uma dimensão de novos sentimentos que achei que nunca teria.

Hoje eu sei onde ir, sei com quem contar, sei como devo comunicar... Cometo os meus erros, como qualquer ser humano. Ninguém por aqui é perfeito. No entanto, tenho consciência do que faço e tento ao máximo evitar ser incorreta, mesmo que seja impulsiva e só consiga desculpar-me depois.

Estava habituada ao mesmo tipo de pessoas que se fascina por algo que não sou, que procura menos do que aquilo que merece, que ambiciona pouco e percebi que para mim isso não funciona. Preciso de me rodear de segurança, determinação e objetivos. E não há nada de errado nisso, isto sou só eu a ser aquilo que quero ser.

Por vezes, mantenho-me sentada a um canto... Observo... Já viste como o mundo corre? Achei que quando chegasse este dia eu ia sentir alguma diferença no que me rodeia, cheguei a pensar que o mundo iria mudar, que as cores mudassem de intensidade, que o meu olhar alterasse e tudo o que consegui alcançar foi uma paz interior que às vezes me assusta.

A ansiedade continua cá, mas com menos frequência. Quando começo a sentir o aperto dos sentimentos limito-me a deixá-los vir, porque sei que no dia seguinte vou acordar a sentir menos, a lembrar menos... Talvez um dia eu consiga ser a mulher segura que quero alcançar. Tudo leva tempo e sei que o meu momento vai chegar, desde que eu vá à luta e não me sente à espera.

Às vezes acho que sonhei com tudo, que sempre estive assim... As imagens que foram reais misturam-se com a ficção e eu deixo de saber o que efetivamente vivi e o que vem dos livros e séries que devoro à velocidade de luz. Comigo tudo é uma montanha russa sem grande rumo, um dia estou lá em cima e noutro consigo ir até à profundeza do meu ser...

Apesar de tudo sei que vejo as coisas de forma diferente e estou a conseguir reerguer-me, a sentir mais aquilo que sou e menos aquilo que querem que eu seja...

Prazer, esta sou eu.

Meu avô...

Querido avô,

Escrevo-te para te tranquilizar, porque vai ficar tudo bem. Apesar de saber que a tua ausência nos dói, eu também tenho noção de que as boas memórias, aos poucos, vão atenuar tudo aquilo que me faz ser melancólica e pensar em ti como algo que perdi.

Sei que apesar de ter perdido o teu abraço, o teu carinho e todas as palavras que me dizias, não perdi os ensinamentos que me deixaste... Para além disso, quero que saibas que também não perdi a memória do brilho do teu olhar quando observavas a tua família.

Caso estejas por aí a ver-nos, não estejas preocupado... Vai passar. A saudade não, mas a revolta, a necessidade de chorar e de nos isolarmos, tudo isso vai passar. Apenas é complicado mentalizarmo-nos de que cada vez que entrarmos pela porta da tua casa, já não vamos mais ouvir "olha os meus meninos"... Vai ser só o silêncio de um lar que já teve tudo e era quente e agora está gelado.

Uns lidam melhor com a tua ausência do que outros. Confesso que não sou a que lida melhor... Mas fica descansado, eu vou aprender que isto é a lei da vida, que ninguém cá fica e que felizmente eu dei-te de mim tudo aquilo que pude, para que hoje, quando me deitar à noite, as lágrimas não sejam de arrependimento, mas sim de saudade... Uma saudade que me queima a garganta e faz com que me sinta vazia.

Talvez leve meses, ou até mesmo anos, mas eu vou deixar de sentir este vazio, porque vou enchê-lo com todo o amor que sinto por ti e pela família que somos... Estejas onde estiveres, não te esqueças que tudo o que somos, também o devemos um bocadinho a ti, e por isso, um grande obrigada.

Agradeço-te pelos ensinamentos, pelas risadas, pelo carinho, pela preocupação... Principalmente agradeço-te por me teres como parte de ti, quando quem devia tê-lo não teve. És o meu avô e isso ninguém me tira.

Descansa em paz, nós estamos bem.

A tua netinha

Por quanto tempo morre o homem?

"Quanto vive o homem, por fim?

Vive mil anos ou um só?

Vive uma semana ou vários séculos?

Por quanto tempo morre o homem?

Que quer dizer para sempre?"

Pablo Neruda

Há dias em que acredito que há vida depois daquilo a que chamamos vida. Por vezes tento enganar-me e mudar de ideias, dizer que tudo termina no segundo em que fechamos os olhos e a nossa respiração deixa de marcar o passar do tempo.

Não consigo convencer-me de que estamos aqui só porque sim, só porque os átomos são incríveis e existe uma energia que não sabemos bem qual é, mas que nos faz sobreviver. Essa é a parte de mim que me faz ir um bocadinho contra o que se denomina por Ciência, mesmo que eu tenha fé de que um dia vamos conseguir chegar lá.

Muitas são as questões que com o passar dos anos se foram formando na minha mente. Várias foram as provas, mesmo que imaginadas, embora eu queira crer que existiram. 

Talvez tudo sejam esperanças de uma idealista, que quer que o mundo seja perfeito, que pretende que tudo seja construído de forma a que nós consigamos evoluir cada dia mais um bocadinho. Ainda assim, para mim faz sentido que exista algo depois... Para onde vai toda a energia que temos? Como é que desligamos assim, do nada?

Consigo defender ambas as ideias: a de que não existe nada quando se morre e a de que continuamos a viver, mas como energia. No entanto, quase sempre opto pela segunda. E sim, eu sei que menciono com alguma regularidade que não tenho uma religião.

A verdade é que não tenho nenhuma religião. No entanto, tenho a esperança, tenho a fé... Posso até dizer que tenho mais fé que muitos religiosos que por aí andam. Acredito que tudo é energia e que, quer queiramos ou não, tudo o que fazemos tem uma consequência, mesmo que essa seja recebida tarde, vai chegar. Acredito que os nossos pensamentos podem afetar o que nos rodeia, que puxamos o que desejamos para os outros.

Para mim faz sentido que estejamos no mundo para nos melhorarmos moralmente, para evoluirmos, para dar melhores condições às gerações futuras, que talvez sejamos nós, ou talvez seja outra pessoa qualquer.

Se às vezes me acho louca? Acho. Mas isso passa... Não somos todos loucos, afinal?

E se chegar o fim?

Se o fim chegar nós sabemos como recomeçar, sempre soubemos e acho que essa pode ser a nossa magia...

Sabemos reiventarmo-nos como poucos sabem... E inacreditavelmente nós nunca soubemos que já estivemos exatamente nesta situação de nos querermos irremediavelmente, sem filtros, só nós e este brilho no olhar que insistes em dizer que é a coisa mais bonita que viste na vida enquanto eu te garanto que o amor te faz cometer loucuras e delirar. Isso é só mais uma alucinação que tiveste, porque nunca te ensinaram o que é amar, nunca te explicaram que irias perder a fome só porque todas as tuas necessidades vão estar saciadas enquanto os meus olhos estiverem colados aos teus, a falar como se o mundo fosse acabar amanhã...

A necessidade de fugir às vezes torna-se maior do que qualquer outra coisa, mas o nosso refúgio é a nossa união e essa vai existir aqui, em Paris ou na Lua, desde que estejamos juntos não precisamos de muito mais. E talvez esse seja o sinal de que precisamos para nos mantermos firmes e fortes, como se fosse destino, entendes?

Insisto em fazer-te acreditar em tudo o que existe fora do que consegues alcançar ou ver, falo-te de signos, destino, previsões, outras vidas que não a que conhecemos e sei que em cada segundo tu te fascinas, porque embora a ciência seja o teu primeiro fascínio, eu ganhei-te doutra forma. Sei que não te faço duvidar das tuas realidades, mas também tenho a certeza que ouves cada teoria como se fosse a maior sabedoria deste mundo.

E talvez esse seja o sinal de que preciso para saber-te meu... Porque a mim já me tens.

Uma Carta ao Passado

Querido passado,

Escrevo-te hoje, de novo, para te informar que estive a pensar e talvez nunca tenha sido amor. Confesso que posso estar a escrever de forma egoísta, só para te dizer que para mim o ponto final foi definitivamente colocado, mesmo que me assombres em sonhos, mesmo que trema de cada vez que oiço algo que traz memórias... A verdade é que preciso de provas, e esta carta pode ser mais uma.

Vivo num talvez, para não sentir que foi tudo vivido em vão, mas na verdade o talvez pende para um "tenho a certeza". Vivo entre o já foi e o nunca existiu, entre as saudades e a repulsa. Sei que tudo o que senti me fez tomar várias decisões, das quais não me arrependo. Se tivesse sido tudo de outra forma eu não estava tão feliz como estou agora.

E se nunca foi amor? Se fosse amor talvez ainda hoje o meu telefone tocasse, se fosse amor talvez eu fizesse por manter a ligação...  Mas talvez ninguém saiba ao certo o que é o amor...

Sabias que sempre que disse não ter tempo, a verdade é que era para alguém em específico que não tinha tempo? Insisti em dizer palavras bonitas, prometi mundos e fundos, e agora o que faço instintivamente é ambicionar não ter dito nada, porque de tanto falar acabei a acreditar em tudo...

Confesso que por momentos desejo que não tivesse entregado tanto do que sou, desejo que me tivesse mantido com uma personalidade intocável e moldada apenas ao que eu queria ser... Hoje sei que tinha tudo, tudo menos o facto de gostarem de mim pelo que era... Tinha tudo menos a minha liberdade de ser.

O que me atormenta ainda mais é saber que estive quase lá, entendes? Houve quase o para sempre, houve quase a ligação, houve quase o compromisso.

Mas ficámo-nos pelo quase e seguimos caminhos diferentes... Corretos ou errados, penso que nunca saberemos, mas parece que foi o momento ideal, um alinhamento de astros que veio mesmo a calhar.

Ainda que pareça que me entrego sempre de olhos fechados a um ciclo vicioso, tudo faz com que sinta que desta vez é diferente. Sei que o coração é outro. Sei-o, porque o sinto. E no fundo é isso que me permite ficar... 

O momento seria agora, ou nunca... Sei que se não aproveitasse este impulso, eu nunca te iria escrever, nunca iria despejar tudo o que existe na minha mente.  

Só me resta pedir-te desculpa, pelas palavras que não querias ouvir, neste caso ler, e que eu devia ter guardado para mim... No entanto, as tuas frases sufocam-me cada vez que eu me lembro delas...  Vê isto como uma retribuição.

Quisémos lutar por um destino que não era o nosso e hoje deixo-te com apenas esta carta e viro-te costas.

Sê feliz, 

o teu passado.

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