Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Em Busca de Um Sentido

Andorinha...

Por vezes via-me como uma borboleta: livre, cheia de cor, sempre em mudança, mas sempre bela. Houve alguém que escrevia para uma e nessa altura lembro-me de sentir que aquelas palavras assentavam em mim como se me lessem a alma. Aquecia-me de tal forma que sempre esperei ler mais, sempre quis que aquelas palavras fossem para mim, mesmo sem haver essa possibilidade. No entanto, sentia-me a borboleta que vai e voa sem destino certo, apenas voa.

Mais recentemente, descobri-me uma andorinha. Não só por ser o nome carinhoso pelo qual a minha avó me chama, mas porque sei que deixei de voar sem destino. Tenho sempre um fim para cada pequena atitude, mesmo que só o perceba alguns momentos depois. Procuro o calor como quem procura ar para respirar, mas claro que este calor é apenas figurativo, porque nada arranca de mim o amor que tenho pelo inverno e pelas roupas de malha que se acumulam no meu guarda-fato. Voo em busca de um sentido para a mulher que serei, voo em busca de um caminho certo, mas o destino é sempre os braços de quem me é querido.

Voo, voo sempre, mas voo num ciclo que tem sempre como princípio e fim o calor que preenche um coração pequenino, mas com uma necessidade infinitamente maior que ele. E assim sei que sou uma andorinha feliz.

O meu lugar...

Há lugares no mundo que nos fazem sentir seguros, plenos, no lugar que deveríamos estar.

Para mim é complicado encontrar esses cantinhos… Nunca fui de me sentir em casa, mesmo quando estou rodeada de tudo o que preciso. Vivo numa constante insatisfação, que tento corrigir, mesmo que nem sempre me seja fácil. Parece que a minha mente está sempre num alvoroço, até quando tenho todas as condições de que preciso para relaxar e simplesmente existir.

Curiosamente achei que nunca iria encontrar o meu sítio em Lisboa, devido ao desassossego próprio da capital, ao trânsito regular e à pressa com que as pessoas vivem as suas vidas. Sendo eu uma rapariga que cresceu no Alentejo, essa realidade tinha tudo para se concretizar. No entanto, na varanda de um oitavo andar, bem no coração da grande cidade, eu percebi que conseguia despejar a mente, aproveitar os raios de sol que tocam a minha pele e ser tudo o que quero, mesmo que seja só nas páginas dos livros que leio e nas folhas que vou escrevinhando e deitando fora.

Por outro lado, nada bate a casa da minha avó, que mesmo cheia me permite voltar à menina que vivia agarrada aos seus livros e canetas, que agora cresceu, mas mantém a paixão pelas folhas em branco, prontas a ser sujas pela tinta da sua caneta. 

Aqui sei que sou feliz, aqui sou eu. Mesmo que só por uns instantes, consigo sentir-me mais próxima da mulher que irei ser e consigo perceber que embora tenha nascido com a ambição de chegar à grande cidade, pertenço aqui e sempre irei pertencer. A maior parte do meu ano pode ser passada bem no centro da confusão que é Lisboa, mas no fim o meu lugar será sempre aqui, numa terrinha algures no meio do meu Alentejo.

Fecho os olhos e...

Fecho os olhos e tudo o que vejo és tu... Tudo o que me vem à mente é esse sorriso que é capaz de iluminar a minha vida, porque eu sei o quão raro ele é, e se existe comigo, talvez eu seja especial. Achas que sou especial?

Por momentos viajo na minha própria mente e dou por nós à beira rio, apenas a observarmo-nos como se fosse a primeira vez que nos vemos... Chego a pensar que somos parecidos às crianças, sabes? São elas que observam tudo com muita atenção, para saberem até onde podem ir, para apreciarem a verdadeira beleza do que se encontra do outro lado. Talvez sejamos bonitos. Achas que sou bonita?

Os segundos passam e vejo um barco a vir... Confesso-te o meu medo. Tudo o que desconheço, temo. Sabias que tenho medo do mar? Rio e tu nem sabes porquê. Explico-te que é engraçado como tenho medo de tudo o que não conheço, mas nunca tive medo de ti. Não achas estranho? Parece que as nossas almas eram amigas de longa data, que simplesmente se reencontraram num dos acasos mais bonitos que alguma vez vivenciei. Achas que existe isso de destino?

Olho-te com atenção... Sei que o meu coração está estranho. Sei que a minha mente para. Será que percebes isso? Foste tu que me roubaste os pensamentos? Foste tu que fizeste com que o meu coração se sentisse ameaçado, ao ponto de querer fugir? Toda eu sou confissões, sabes disso... Mas há coisas que não quero que saibas, gostava de poder guardá-las para mim, para me sentir mais senhora do meu nariz. Mesmo que seja só uma ilusão, importas-te de alimentá-la? 

De repente sinto as minhas mãos... Só agora notei que os meus dedos estão entrelaçados nos teus, como se estivessem em casa. Sabias que nunca gostei de andar de mãos dadas? Sei que algo na calma que sinto quando estou perto de ti me deixa alerta, mas hoje desliguei todos os alarmes... Quero estar simplesmente aqui, aproveitar a brisa que faz os meus cabelos voar, aproveitar o calor que me transmites, a paz que me dás quando eu me permito simplesmente estar. Talvez esteja apaixonada... Achas que estou apaixonada?

Estás a ouvir este som? Ouves o mesmo que eu? Mas tu já não estás aqui...

Desvaneceste-te e nesse momento sei que adormeci e mais uma vez sonhei contigo. No entanto, há a parte boa. Sei que num instante vou estar contigo e ponho-me bonita, faço com que até eu me sinta bem comigo mesma. Se eu não estiver segura de mim tu não vais sentir a segurança que quero transmitir, não é?

Vejo-te e digo que tenho que te contar uma coisa, não podes gozar comigo, sabes que odeio isso. Estive contigo até agora, sabias?

E o pior é que sabias. Não me achas doida. Como poderias achar?

"Eu sei, eu também estava lá". E nesse momento sei que o rio é o nosso lugar e permaneceremos sempre ali, a estar.

Pág. 2/2