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Em Busca de Um Sentido

Eu não tenho religião, mas...

Eu não tenho religião, mas fecho os olhos e imagino um mundo melhor, onde ninguém depende de ninguém e todos somos fortes e independentes. Na minha cabeça vivo nessa utopia de que o mundo está limpo de males e que todas as almas que por aqui andam são puras.

Sei que não sou a única com essas ambições, ouço-te falar por aí do quanto seria bom que os presidentes fizessem pelo povo e não pelos bolsos que têm, que já vão bem cheios, enquanto os nossos esvaziam cada vez mais.

Mas eu tenho esperança... Às vezes até posso dizer que tenho fé, visto que quando dou por mim estou numa angústia gigante e rezo. Sabes pelo que rezo? Rezo pela mudança, pela paz a cair-nos aos pés sem que seja duro lutar por ela. Estou tão farta de ver crianças abandonadas, pessoas a passar fome, países a arder e políticos a discutir coisas que em nada mudam a situação em que estamos.

Quantas vezes por dia ligas a televisão? Sabias que estou desligada do mundo? Não me orgulho de dizer que sou sempre, ou quase sempre, das últimas a saber o que se passa por aqui. Gosto de viver com a consciência tranquila, sem ter medo de rir, sem ter medo de ser feliz, sem ter medo de ser ambiciosa. Mas por vezes reprovo-me... Reprovo-me ao ponto de me ir informar... E sinto um vazio gigante. Com tanta gente a passar mal, eu estou aqui, a escrever num computador, enquanto o mundo está cada vez mais degradado. Enquanto o mundo vai de mal a pior, eu estou aqui, a querer ter uma casa grande e dinheiro na conta. Enquanto eu vivo a minha vida sem pesos, há quem carregue mundos para conseguir sobreviver.

E por instantes, eu desejo que todos nos juntemos e rezemos. Rezemos para que um dia não sejamos nós... Rezemos para que os bens sejam melhor repartidos... Rezemos por tudo e por nada. Mas isso passa-me, sabes porquê?

Porque eu não tenho religião, mas rezo. Eu não tenho religião, mas quero marcar a diferença. Eu não tenho religião, mas quero dar de comer a quem não o tem. Eu não tenho religião, mas também não a finjo ter.

E tu? Tu, que finjes ter religião, que te assumes católico, protestante ou o que raio lhe queiras chamar... Que fazes para mudar o nosso mundo?

Fé e Proteção

E é perdida que encontro o meu lugar...

Sinto-me perdida, mesmo quando sei exatamente onde estou... E o mais estranho é que gosto da sensação... Perco-me nos campos acabados de florir, no som da água a correr por onde consegue... Vou olhando para tudo como se fosse a primeira vez que ali estou e como se nunca mais pudesse voltar a apreciar tudo o que a Natureza tem para me oferecer...

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Sei que dou atenção a pormenores que mais ninguém consegue ver, mesmo que tente, encontro beleza numa simples folha com duas ou três gotas de água... Alguns acham que perco o meu tempo sempre que agarro na máquina fotográfica e vou captando tudo quanto consigo, até coisas que possam parecer verdadeiramente insignificantes... No entanto, para mim tudo tem potencial e é isso que me permite continuar a sentir felicidade quando clico no botão.

Perco noção do tempo, as horas tornam-se curtas para a vontade que eu tenho de absorver tudo o que os meus olhos conseguem alcançar... E eu sei que para além do horizonte há mais para ver, para observar, para me apaixonar... E vou andando em frente, à descoberta de um mundo que a minha objetiva ainda não alcançou, mesmo que me garantam que é tudo igual ao que vi na semana passada.

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Quando me apercebo que o tempo realmente passa, já está a escurecer e preciso de voltar à realidade dos dias monótonos, em que tudo é igual e a rotina é a mesma de sempre. Mas se há uma coisa que sei, é que não vão deixar de existir esses dias em que me deixo ir ao sabor do vento, sem me preocupar com os segundos a passar...

Sabes uma coisa? É ali, no nascer de algo novo, no florir de um mundo, que eu encontro a minha essência e tudo o que me traz harmonia.

Sozinha em Lisboa

Há um ano mudei-me para a Grande Lisboa, para passar lá o ano letivo. Cheguei com a intenção de estar lá pelo menos três anos (o tempo do curso que frequentava) e talvez ir embora para mestrado. Atualmente, estou à espera de mudar para um mestrado integrado este ano, o que significa pelo menos mais 5 anos na confusão de Lisboa. E sim, sei que disse que não ia mudar de curso, mas não estava feliz com a minha decisão. Será que estou doente?

Ao início tudo na mudança foi maravilhoso. O fascínio assombrava-me de tal forma que cheguei a achar que ia ser canja. Não podia ser assim tão difícil, era só uma cidade e eu ia conseguir lidar com isso. Em cada canto eu arranjava uma razão para amar Lisboa e hoje, passado praticamente um ano eu entendo que isso foi a proteção que eu arranjei. Eu saí de casa com um medo imenso, com vontade de chorar, estava convencida que passado um mês eu ia querer desistir.

Aos poucos entendi que Lisboa é mais que uma cidade. Não é de todo o mar de rosas que esperei... É o barulho, o cheiro, o clima, as pessoas, a correria, os sem-abrigo, os turistas, o contraste em tudo. No entanto, existem todas as oportunidades de atuar no mundo, de crescer, de aprender, de ser cada vez melhor. E hoje consigo ter a noção que dificilmente vou construir a minha vida no Alentejo.

O que mais me custou na adaptação foi o facto de estar a lidar com pessoas completamente diferentes das que estava habituada. Parece que todos são indiferentes ao que os rodeia, há toda uma insensibilidade que eu ainda não consegui aceitar. Perdi o "desculpe" sempre que levo um encontrão na rua, o sorriso sempre que sem querer olho nos olhos de alguém, a palavra que recebia daquela velhota sempre que ia no autocarro sozinha.

Acabei por, muitas vezes, me sentir sozinha dias seguidos, mesmo que estivesse rodeada de pessoas. Aquilo fazia-me pensar que caso acontecesse alguma coisa ali, no meio da rua, ninguém ia olhar sequer, porque não se pode chegar tarde ao trabalho, porque os filhos estão à espera no colégio, porque é uma miúda a querer atenção, porque simplesmente não querem saber. E isso chegou a acontecer-me... Um dia torci o pé nas escadas da estação do metro, mal andava, várias pessoas viram que eu estava realmente aflita, mas nem uma parou para me perguntar se eu precisava de alguma coisa.

O que eu achei que ia ser fácil tornou-se assustador, porque eu era uma miúda de 19 anos a viver na capital, completamente sozinha.

Apesar disto tudo, o balanço do ano é positivo, visto que tive a certeza que eu quero estudar o resto da minha vida. Para além disso, posso dizer-me apaixonada por Lisboa e sinceramente, já tenho saudades. Para aproveitar a cidade, basta tentar esquecer um bocadinho as partes más, tentar agarrar com toda a força que der as coisas positivas e deixar o tempo passar.

Hoje posso dizer que estou super feliz com a mudança. Sinto que estou no lugar certo, rodeadas das pessoas certas e estou a viver o meu maior sonho. Quem não gosta de se sentir assim? Eu definitivamente gosto.

Andorinha...

Por vezes via-me como uma borboleta: livre, cheia de cor, sempre em mudança, mas sempre bela. Houve alguém que escrevia para uma e nessa altura lembro-me de sentir que aquelas palavras assentavam em mim como se me lessem a alma. Aquecia-me de tal forma que sempre esperei ler mais, sempre quis que aquelas palavras fossem para mim, mesmo sem haver essa possibilidade. No entanto, sentia-me a borboleta que vai e voa sem destino certo, apenas voa.

Mais recentemente, descobri-me uma andorinha. Não só por ser o nome carinhoso pelo qual a minha avó me chama, mas porque sei que deixei de voar sem destino. Tenho sempre um fim para cada pequena atitude, mesmo que só o perceba alguns momentos depois. Procuro o calor como quem procura ar para respirar, mas claro que este calor é apenas figurativo, porque nada arranca de mim o amor que tenho pelo inverno e pelas roupas de malha que se acumulam no meu guarda-fato. Voo em busca de um sentido para a mulher que serei, voo em busca de um caminho certo, mas o destino é sempre os braços de quem me é querido.

Voo, voo sempre, mas voo num ciclo que tem sempre como princípio e fim o calor que preenche um coração pequenino, mas com uma necessidade infinitamente maior que ele. E assim sei que sou uma andorinha feliz.

O meu lugar...

Há lugares no mundo que nos fazem sentir seguros, plenos, no lugar que deveríamos estar.

Para mim é complicado encontrar esses cantinhos… Nunca fui de me sentir em casa, mesmo quando estou rodeada de tudo o que preciso. Vivo numa constante insatisfação, que tento corrigir, mesmo que nem sempre me seja fácil. Parece que a minha mente está sempre num alvoroço, até quando tenho todas as condições de que preciso para relaxar e simplesmente existir.

Curiosamente achei que nunca iria encontrar o meu sítio em Lisboa, devido ao desassossego próprio da capital, ao trânsito regular e à pressa com que as pessoas vivem as suas vidas. Sendo eu uma rapariga que cresceu no Alentejo, essa realidade tinha tudo para se concretizar. No entanto, na varanda de um oitavo andar, bem no coração da grande cidade, eu percebi que conseguia despejar a mente, aproveitar os raios de sol que tocam a minha pele e ser tudo o que quero, mesmo que seja só nas páginas dos livros que leio e nas folhas que vou escrevinhando e deitando fora.

Por outro lado, nada bate a casa da minha avó, que mesmo cheia me permite voltar à menina que vivia agarrada aos seus livros e canetas, que agora cresceu, mas mantém a paixão pelas folhas em branco, prontas a ser sujas pela tinta da sua caneta. 

Aqui sei que sou feliz, aqui sou eu. Mesmo que só por uns instantes, consigo sentir-me mais próxima da mulher que irei ser e consigo perceber que embora tenha nascido com a ambição de chegar à grande cidade, pertenço aqui e sempre irei pertencer. A maior parte do meu ano pode ser passada bem no centro da confusão que é Lisboa, mas no fim o meu lugar será sempre aqui, numa terrinha algures no meio do meu Alentejo.

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