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Em Busca de Um Sentido

Volto à confusão...

Sensação crescente de que escolher-me faz de mim alguém egoísta e amargo, quando na verdade tenho todo o direito de decidir o que quero ou não na minha vida.

Todas as escolhas me parecem ser feitas em momentos de impulsão, sem pensamento acerca dos assuntos, quando na verdade sou a pessoa que remói cada pedacinho de pensamento para ter a certeza de tudo.

Olho-me ao espelho e vejo várias de mim. Essa total desidentificação com algo concreto leva a que ande à deriva entre ideais, entre grupos e até entre hobbies. Não sou só cientista, mas também não sou só artista. Não sou só sentimental, mas também não sou só a durona. Não sou só a organizada, mas também não sou só a que se perde nas listas. Não sou só a que se maquilha, mas também não sou só a que anda de fato de treino.

A lista poderia continuar... Tudo isto para dizer que a minha pluraridade de reações e de identificações leva-me à confusão extrema por vezes. Aceito-me, mas não consigo descrever o que aceito. Apenas sei que sou e que gosto do que sou. E volto à confusão...

Tenho que te pedir que saias...

Entre folhas antigas escrevo-te de novo, como em tantos outros momentos. Escrevo-te como forma de me libertar das amarras que me autoimpus, no meio de uma descoberta interior que quero fazer, embora me prenda constantemente.

Longe dessas amarras sinto que posso ser por inteiro aquilo que me tenho impedido de ser sem perceber o que realmente estava a fazer.

A brisa vem, a brisa vai... E eu aqui sentada, entre pensamentos que sempre quis cortar, mas que hoje me permito agarrar e explorar, como forma de me conhecer para além do reflexo que vejo todos os dias ao acordar.

Quase sem ver, dei por mim no meio de mantas e lençóis que encharcaram com os mares que me corriam rosto abaixo... O mar ia e vinha, através de ondas que me estremeciam o corpo por inteiro e me afogavam aos poucos em pré-conceitos criados, com base em medos obscuros que muitas vezes me impediram de respirar.

E é por isso que hoje te escrevo... Porque a brisa que me levanta os cabelos está a limpar a alma que era receosa e aos poucos se torna segura nas suas imperfeições e que se abraça num gesto que conforta. Mesmo sem rumo definido, eu sei o que quero viver e tenho que te pedir que saias, aos poucos, para doer menos... Mas vai.

Vou enviar-te todo o amor que te tenho...

Nas sombras da noite vem-me à memória o teu rosto, num ar brincalhão, sempre com uma piada na ponta da língua e com um ar compreensivo... E é nestas alturas que eu percebo o quanto te eternizei na minha vida, o quanto tenho de ti como referência e o quanto me vou enchendo de saudades por saber que o abraço não volta e que os risos também não.

Nem sempre o digo, mas todos os dias me lembro de ti e sinto a falta que me faz ouvir uma história tua, mesmo quando é repetida e me mostra o quanto sou privilegiada por ter tido a sorte de te ter um dia, porque ter-te permitiu-me chegar aqui... Querer dar-te um mundo cheio de maravilhas, trouxe-me o sonho da menina que te chegou a casa assustada com as possibilidades que a vida lhe estava a oferecer.

Sei que o amor era mútuo, sei que, estejas onde estiveres, te enches de orgulho dos teus netinhos e de tudo o que alcançaram até hoje... Pelo menos gosto de acreditar nisso... Mas este vazio continua, e esta vontade de proteger tudo e todos só se intensifica com a tua ausência, porque de alguma forma, para além de tudo o que me ensinaste, também me deste a noção de fim, a noção de que o que está aqui hoje, pode não estar amanhã.

Foste a alegria de uma casa que nem sempre queria estar animada, foste o calor nos dias frios e foste a sabedoria para uma menina que tinha tanto que nunca teve noção do que era pouco... Mesmo nos momentos em que me olhavas com um ar perdido, sem te conseguires orientar, foste a calma e a compreensão, e isso diz tudo sobre a pessoa que foste na minha vida.

As lágrimas hoje são menos. O tempo passa e com ele vem a aceitação... Mas há dias que são mais intensos. Hoje foi um deles. Passei o dia contigo na cabeça e vou adormecer a enviar-te todo o amor que te tenho, pode ser que algures no universo estejas a recebê-lo... 

Eu e o mundo...

Por vezes acordo com vontade de te escrever acerca do que nunca chegámos a viver, mas que planeámos até à exaustão. Todas as viagens, todos os restaurantes, todos os cantos e recantos de uma cidade que viu nascer um amor e também o viu ir...

No meio do turbilhão de emoções que me iam ocupando a mente, a adrenalina foi desvanescendo e ficou apenas um enorme carinho que se pode confundir com tantas outras coisas e que fui aceitando, como se nunca fosse merecer mais do que um amor calmo e sereno, tão sereno que se torna apenas o estar e não o ser.

De tanto te querer, deixei o momento passar e deixei com isso irem todas as coisas bonitas que um dia dissemos olhos nos olhos, que tanto sentido faziam e que hoje me apertam o coração. Não é que eu não o quisesse... Mas há mais para lá das cortinas que se fecham quando eu me foco apenas em criar uma fantasia do par perfeito e não consigo ver que às vezes as coisas não são para ser e que existem os meus próprios limites, que não quero ultrapassar.

Para além de ti, existo eu. Um dia que não estejas, vou estar eu. E se eu não estou serena, como podemos estar nós? Se eu não gosto do silêncio quando estou aqui, como posso gostar quando estás tu?

Nunca digo nunca, aprendi com os meus erros... Também deixei as despedidas para outro dia... Mas para hoje quero isto. Eu, as minhas letras salpicadas em folhas velhas, os meus livros que foram acumulando nas prateleiras e o mundo que vou descobrir sozinha, por agora.

Vamos fazer com que seja melhor...

A tarefa devia ser outra e a concentração deveria estar entre a equação de ondas, espelhos, interferências e coisas que o valham... Mas está aqui, entre dúvidas existenciais, crises de identidade e problemas com solução fácil, mas que insisto em complicar.

E a música enche-me os ouvidos enquanto o mundo à minha volta é colorido com marcadores pastel. Tudo o que eu queria era saber que um dia tudo valerá a pena, que as horas "perdidas" entre um esforço desmedido para decorar matéria e uma vontade enorme de dormir infinitamente vão compensar.

Passo o dia entre mensagens de telemóvel, músicas para estar concentrada e equações que não me entram na cabeça, e nos entretantos a vida lá fora acontece e pergunto-me "porque raio acho sempre que é boa ideia fazer melhorias?".

Exijo demais, sempre exigi, por uma necessidade exagerada de aproveitar todas as oportunidades que me caem ao colo e fazer delas o melhor que consigo fazer. No fim das contas, isto pode vir a ser o meu futuro e não me quero arrepender de me ter esforçado menos do que deveria... Mesmo que saiba o que valho e que talvez não faça assim tanta diferença, se pode ser melhor, vamos fazer com que seja melhor.